quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Maria: portadora da verdadeira Paz

Salve, Sancta Parens
Ao iniciarmos mais um ano, queremos agradecer ao Senhor da vida que nos concede a oportunidade de introduzirmos um novo tempo em nossa história, onde poderemos trilhar, na cotidianidade, os caminhos que nos propusermos a fazer em nosso percurso existencial. Para tanto, devemos sempre ter em mente que este momento não se dá jamais de forma desregrada ou autossuficiente, mas está inteiramente sob a conduta de uma vida que sabe ver em Deus o ápice de todo caminhar. O primeiro dia do ano não é marcado somente pela felicidade momentânea de troca de votos e de desejos expressivos de um ano próspero e duradouro. Outra celebração, ainda mais revestida de esplendor, assinala este momento: a Solenidade da Maternidade divina de Maria. Na vasta gama de oportunidades para celebrarmos esta data, aprouve a Igreja confiar a Virgem Mãe este momento. Na alvissareira condição histórica, Maria é aquela que nos faz silenciar na escuta atenta, no acalanto do regaço materno e no tempo que devemos oferecer a Deus.

“O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26). A Francisco de Assis parecia agradar-lhe muito essa fórmula de bênção da primeira leitura de hoje, que depois a liturgia também tomou para as celebrações, inserindo-a como a primeira nas possibilidades das bênçãos “per annum”. Ele mesmo escreveu-a de próprio punho ao seu confrade, confessor e pai, Frei Leão. Como diácono, Francisco sabia que Leão estava acima dele enquanto sacerdote, por isso nutria-lhe grande respeito e nele reconhecia a dignidade da identidade sacerdotal. Recuperando uma fórmula quase esquecida, motivava um novo olhar sobre o Deus que enriquece com sua graça a humanidade. É claro que Francisco procurava acima de tudo o olhar de Deus, quase numa analogia com o próprio salmista, que escreveu: “Meu coração diz a teu respeito: ‘Buscai a minha face!’. A vossa face, Senhor, eu procuro. Não escondais de mim a vossa face, não rejeiteis com ira o vosso servo” (Sl 26, 8-9). Desde a forma como preparava a chegada do Príncipe da Paz (cf. Is 9,6), podemos antever que o seu desejo era antes de tudo encontrar o rosto de Deus e transmiti-lo também aos outros. Ele sabia que aquele rosto tivera se manifestado em Jesus Cristo e queria que, como os pastores e magos, o estábulo fosse agora o local da acolhida de todos os que viessem ver o Deus menino. Quando, em 1223, celebrou o Natal em Greccio com um boi, um jumento e uma manjedoura cheia de feno, tornou-se visível uma dimensão mais contundente e atual desta festa. Natal era agora a festa da pobreza de Deus, que por meio de um menino aparentemente comum e igual a todos os outros, falou e fala aos homens que se deixam tocar pelo Seu mistério.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal do Senhor: a reconstituição do gênero humano


Mais uma vez a Igreja nos insere no contexto grandioso da solenidade hodierna. Deus entra na história humana; o distante torna-se próximo e o céu e a terra entrelaçam-se. Ele é um de nós! Mas este acontecimento que os gregos chamariam de “absurdo”, para nós exprime algo mais. Ele dilata a nossa visão para a essência da vida, nos retirando da mesquinhez intelectual e da soberania do nosso ego; desinstala-nos da nossa comodidade e nos faz andar novamente a Belém para adorarmos o mistério de Deus ali manifestado. Ele é a verdadeira esperança; a promessa esperada de paz e de salvação do povo hebreu.

No livro de Malaquias, lido por nós na iminência desta solenidade, o profeta nos relata a promessa messiânica daquele que viria instaurar a paz, a ordem e a justiça entre os povos: “Ele se estabelecerá e pastoreará na força do Senhor, na majestade do nome do Senhor, o seu Deus. E eles viverão em segurança, pois a grandeza dele alcançará os confins da terra. Ele será a sua paz” (5,2-5). A promessa de paz vem acompanhada da certeza do pastoreio na força e na majestade. Parece-nos paradoxal a compreensão desta realidade ambígua diante da bem-aventurança pacífica de Jesus: “Bem-aventurados os que promovem a paz” (Mt 5,9). Como pode prover a paz se o texto conjuga como característica deste pastoreio a força? A compreensão equivocada destas palavras poderia induzir-nos a uma deturpada leitura do lugar de Deus na história e da sua intervenção na vida do homem. De fato, quantas vezes o nome divino foi e é usado para promover a guerra, a disseminação do ódio e a intolerância? Não seria esta uma abertura errônea do homem para Deus? Parecer-nos-ia que Deus precisaria da força e do ódio para impor-se diante do mundo, como se o seu poder fosse reduzido a uma instância meramente humana. Às palavras do profeta, entretanto, não podemos esquecer-nos da promessa que se segue àquela da instauração da força: “Ele será a sua paz”. Sim, Ele é verdadeiramente a paz, não apenas daqueles que sofreram sob o exílio, como também daqueles que hoje sofrem e são exilados da sua pátria, seja por motivos religiosos, seja por motivos socioeconômicos. É necessário que o homem tenha o seu coração dilatado a Deus para a compreensão desta promessa salutar.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Comunicação e Juventude: o desafio da Igreja hoje

“A mãe Igreja sabe que estes meios, retamente utilizados, prestam ajuda valiosa ao gênero humano, enquanto contribuem eficazmente para recrear e cultivar os espíritos e para propagar e firmar o reino de Deus; sabe também que os homens podem utilizar tais meios contra o desígnio do Criador e convertê-los em meios da sua própria ruína; mais ainda, sente uma maternal angústia pelos danos que, com o seu mau uso, se têm infligido, com demasiada frequência, à sociedade humana” (Inter Mirifica, 2).

O Decreto Inter mirifica, que há mais de 50 anos a Igreja publicou com o Concílio Vaticano II, nos permite antever um cenário que cinco décadas depois tornar-se-ia quase comum no contexto cultural e de valores. Tanto para o bem como para o mal, o homem pode potencializar o uso dos meios de comunicação. Numa sociedade que vitima-se a si mesma pela pela incoerência do uso desses meios e já não sabe assim distinguir entre bem e mal, justo e injusto, verdade e mentira, devemos nos perguntar: como delimitar aquilo que edifica e o que destrói? Até onde os meios de comunicação podem estimular a sabedoria e até onde podem limitá-la ou conduzi-la à prática do mal?

O convite para dirigir algumas palavras a vocês pareceu-me muito oportuno, sobretudo porque aqui encontram-se muitos jovens, quer em idade, quer em espírito. Como tema, escolhi: “Comunicação e Juventude: o desafio da Igreja hoje”. A Igreja é desafiada ao anúncio do Evangelho há quase dois mil anos. Em 2033 celebraremos o Ano Santo do bimilenário da morte e da sua ressurreição de Cristo. Nesse percurso poderíamos pensar em quanto Evangelho anunciado. Quanta Boa Nova! Quantas crianças, jovens, adultos e idosos convertidos! Contudo, quanto ainda se há por fazer! Tão pouco foi concretizado diante do que poderíamos ter feito. Pelo Reino de Deus sempre pode se fazer mais!

O anúncio da Boa Notícia pareceu reduzir-se e limitar-se a realidades padronizadas, quando desejamos manipular – por assim dizer – o Espírito Santo. O desafio da Igreja é o de espalhar a mensagem de Deus, torná-la fecunda e cativar o coração de cada homem, chamando-os a se tornarem parte da viva comunhão com o Criador. Ainda poderíamos dizer melhor: a Igreja deve descobrir Deus nas culturas, os sinais do Verbo (Logos spermatikos), que o Vaticano II retomou da teologia de São Justino. Os meios de comunicação tem um grande potencial para tal, como há muito tempo o fazem colaborando na transmissão do evangelho e conseguindo chegar aos recantos do mundo e aos lugares de difícil acesso. Quantas conversões foram causadas por uma palavra de conforto na televisão, no rádio, na internet! Quantas pessoas ajudadas!

Se temos um prisma bom para aqueles que sabem corretamente usar as redes, temos também um prisma negativo daqueles que as usam para vitimar o outro na sua sede de intolerância, ataques e ignorância. Pensamos sobretudo a partir de uma realidade supérflua, quando as redes começam a assumir uma posição de necessidade e não de colaboração, sinonimamente chamada vício.

domingo, 29 de novembro de 2015

Breve pensamento no início do Advento

Hoje, em consequência do tempo do Advento, veio-me à mente a passagem contundente das palavras de Jesus: "Quem perseverar até o fim será salvo" (Mt 24,13). Tudo parece dificultar a nossa perseverança e o bom êxito das nossas ações. Nos sentimos contraídos por pressões exteriores quase que a sufocarem nossa fé e a capacidade de darmos passos. Nesta dimensão da perseverança, não se evidenciam apenas os nossos esforços para trilharmos o caminho, mas até onde as pessoas permitem que o trilhemos e possamos obter os devidos resultados.
"Quem perseverar até o fim...". Mas como, Senhor, se pode perseverar quando somos perseguidos dentro da própria Igreja, pela prática da verdade? Como se pode perseverar quando somos injustamente acusados por levantarmos a voz em defesa da fé? Como se pode perseverar quando aqueles que deveriam ser semeadores do teu Reino ceifam o trigo bom, mas cultivam o joio? Como se pode perseverar quando a tua própria Igreja possui homens e mulheres que querem ter uma fé parcial, dando fé ao que convém mas rejeitando as condições necessárias para o ser cristão? Como perseverar assolados por tantos males da sociedade pós-moderna, como o relativismo, o hedonismo, o consumismo...? Como perseverar em meio a sede de ódio e o uso da violência como tentativa frustrada de justificar os interesses econômicos? Como perseverar quando o teu próprio Nome é usado como artifício para a violência?
E passados mais de dois mil anos, essas palavras não cessam de nos inquietar e de incomodar a forma como temos até aqui vivido. Não estamos, infelizmente nos é permitido constatar, preparados para o teu advento definitivo. É bem capaz de sermos, como vós dissestes, partidos ao meio e destinados à sorte dos infelizes. Mesmo no desânimo, consola-nos o vosso estímulo: "Levantai as vossas cabeças!". As levantaremos confiando em Vós e na vossa promessa. Afinal, são a esses que prometestes a tua salvação.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Pensando a morte num mundo de vaidades

Antes do mais, devo ressaltar que, por uma questão de coesão, me parece preferível  pensar a morte, enquanto componente do processo existencial humano, do que pensar na morte.
O título a primeiro instante deve ter criado até mesmo uma repulsa no leitor. Em parte, compreendo! Vivemos numa sociedade marcada pelo instinto de felicidade plena. Não se pensa mais para além de si, mas pensa-se em si e no agora. Vivemos intensamente e desfrutamos de todos os prazeres, mas nunca nos preocupamos em interrogar-nos com a pergunta que é parte deste processo de vida: O que virá depois disso? Certos dramas – e não me nego a afirmar convictamente – que o homem contemporâneo tomou para si, são consequências da sua repulsa por pensar que um dia todos chegarão a um termo na vida.
Dois de novembro é o dia que muitos vão ao cemitério, levam flores, acendem velas nos jazidos dos que o precederam neste mundo e terminaram as suas vidas acometidos por uma doença ou por uma grande fatalidade, ou ainda tiveram sua vida tirada por outrem. Lamentável! Todos fazem este processo de relembrança, mas poucos sabem – como escrevi noutro artigo – fazer o processo de ressignificação dessa pessoa em sua vida e qual lugar ele deveria ocupar a partir daquele instante. Não nos acostumamos à ausência facilmente, mas se não encararmos o processo de dor imediata, uma hora ela aparecerá de forma tão avassaladora que poderá desmotivar o sujeito até mesmo para a vida.
Mas, o que pensar da morte neste mundo de aparências e de felicidades fugazes? Como pode o homem da pós-modernidade lançar um olhar sobre ela sem que isso o deixe extremamente constrangido ao sair de um cemitério ou sem que, talvez por um dia ou mais, permaneça com sentimento de angústia?
A morte sempre permaneceu um enigma, quer para a filosofia, quer para a teologia ou mesmo para a ciência. A ciência ainda dirá que a consequência da morte é a cessação das atividades dos órgãos característicos para a manutenção física. Mas a meu ver isso não é causa, é consequência. A pergunta seria anterior a este estágio: por que, então, os órgãos deixam de funcionar? Entretanto, não é aqui ainda que quero me ater, nos aspectos científicos. Desejo suscitar no leitor a possibilidade (ou necessidade) de convergir o olhar para a morte, não de forma assustadora e mitificada pelo que se ouve falar em diversos âmbitos. Pensemos a morte de forma mais suavizada... se é possível.

sábado, 24 de outubro de 2015

Quem sou eu?

A pertinente pergunta filosófica que intitula nosso artigo cederá lugar aqui a uma análise sobre a situação do homem diante das novas tecnologias. Uma visão filosófico-social mediante os desafios que se desdobram no cenário da superficialidade das relações e da incompatibilidade com o eu.

Não desmerecendo o valor do grande avanço científico que nos possibilitou certa proximidade com pessoas fisicamente distantes de nós, sabendo que, se usados coerentemente, estes meios tendem a dilatar perspectivas maiores para a potencialização do conhecimento, não podemos, por outro lado, ignorar a guinada que o ser humano propiciou com a sua anuência às relações virtuais em detrimento das relações físicas. Substituiu-se a realidade por alguns sms’s, mensagens de voz, postagens nos perfis do facebook ou fotos no instagram. Aliás, a coisa está tão patente que a sua vida se reduziu a uma multiplicidade de like’s, e quando não os conseguem, entram numa crise estapafúrdia de inferioridade. Se tiver muitas curtidas (quer seja no facebook, quer no instagram) é conhecido; mas se poucos o veem, curtem e seguem, surge a pergunta existencial inserida neste outro contexto: quem sou eu? Quem aparento ser diante de alguém que tem 20 mil curtidas? A partir daí começa-se o investimento que faz jus a música de um cantor brasileiro, estimulando a ideia de uma metamorfose ambulante.

Mas não parou por aí! A situação degringolou de vez quando fomos assolados pela massa midiática que preponderantemente nos informa, mas não nos forma – e por isso nos deforma. Quando a dimensão pessoal fica restringida a redutibilidade de um celular ou de um computador, a vida perde sentido diante daquelas ações e reações que só o contato físico pode favorecer. As emoções parecem superficiais, os sentimentos são fugazes, as palavras são esquecidas. Em primeiro instante tudo parece belo e lindo, mas depois temos a capacidade de com um delete excluir tudo o que fora dito... Dito, mas não vivido!

No mundo da superficialidade falta esperança, sobra espera. É preciso esperar com esperança e ter esperança na espera. Faltam-se as redes sociais? Brota a impaciência! Ficam aniquiladas as estruturas do diálogo porque já não mais se é capaz de parar e escutar. Quanto mais usamos mal a web, mais ficamos descomprometidos com a verdade, mais ficamos longe de nós mesmos e ficamos menos a disposição do outro. Urge retomar a consciência da escuta, que é uma das bases do diálogo. Onde todos falam ao mesmo tempo, a ninguém se escuta. Quando dez pessoas falam conjuntamente, dali só ouve-se murmúrios, vozes que se misturam com uma grotesca falta de educação, de tal forma que um sempre quererá sobrepujar a sua à dos demais. Se nós apenas falamos e falamos, a quem escutamos? Tolhemo-nos do conhecimento porque desconhecemos aspectos que antes eram cruciais na vida.

Gosto de escrever poesias, e numa delas falava sobre ressignificar, isto é, conferir nova acepção, novo significado, aos aspectos que permeiam o nosso cotidiano. Penso que tenha chegado também a hora de direcionarmos um novo olhar para os meios de comunicação. Que lugar eles ocupam na nossa vida? Apenas nos subtraem da vida ou nos ajudam na apropriação do conhecimento? E que conhecimento pode nos oferecer as redes sociais? Sou “senhor” das comunicações sociais ou deixo que elas me dominem? Promovo o bem no âmbito interativo?

Incrivelmente as redes sociais nos mantém ocupados, mas não nos tornam mais inteligentes. Nesse patamar, não sei se alcançaremos uma virada epistemológica do conhecimento. E quando somos convidados a parar, encontramos o nosso próprio eu e nos sentimos tão vazios que logo procuramos outras ocupações que nos mantenham ocupados. É quase inviável que, nesta conjuntura, descubramos quem somos de fato.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Aguardo você por lá...

O Conacat é um congresso católico online, com diversas palestras. Não deixe de se inscrever... Participe! Pela família, pela fé e pela vida!

domingo, 11 de outubro de 2015

Obrigado porque fostes embora

O pecado não está em possuir, mas em ser possuído por aquilo que você possui. É isso que nos ensina Jesus quando critica não a riqueza, mas o fato de nos deixarmos possuir por ela. Por isso, quando tudo queremos, nada conseguimos. No-lo recordou Pe. Vieira: "Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem". Nas realidades prioritárias da nossa vida a lei de Deus sempre vai para o último lugar diante do desejo do homem. A riqueza mal usada é como corrente, que não permite que o homem seja elevado, mas o prende neste mundo e quem está preso não pode subir, mesmo que tenha asas e desejo. Há precisos 3 anos, quando repetia-se este mesmo evangelho, eu disse que condenar a riqueza seria um grande prejuízo a Jesus, pois existem pobres soberbos e ricos que são pobres. Existe a profunda pobreza material e a profunda pobreza espiritual. Um não é sinônimo do outro, como também o inverso não pode sê-lo. 

Obrigado, jovem rico, porque fostes embora e não permanecestes onde achastes que não te cabia. 

Obrigado porque vistes que não era aquele o teu local e, na tua sinceridade, mesmo apegado aos bens do mundo, não fostes um usurpador de título ou procurastes o Senhor por interesse.

Obrigado porque proporcionastes a Jesus o belo ensinamento de que o homem que não usa a sua riqueza para o bem, não sabe usar bem sua riqueza.

Obrigado porque ensinastes que não se pode seguir Jesus se não somos capazes de renunciar ao material, ao supérfluo e transitório.

Obrigado porque mostras aos que querem seguir o Senhor a dificuldade do caminho, exigências e respostas de amor que devem ser dadas a quem nos deu tudo.

Obrigado, Padres, que vos percebendo incapazes de dar continuidade ao caminho exigente do Evangelho e para honrar a Igreja preferistes renunciar ao exercício do ministério, não fazendo como tantos outros que dizem amar a Cristo, mas ajuntam para si tanta riqueza, quanto almas para Deus.


Obrigado, Religiosos (as), que não conseguindo abraçar intimamente o caminho do discipulado, deixastes os claustros e congregações para vos inserirdes no mundo, reconhecendo a não-capacidade de dar continuidade ao seguimento radical.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O erro em ser correto: uma análise sobre a Igreja interiormente

Por que, Senhor, na tua Igreja hoje, é errado ser correto? A vergonha nos espreita porque não somos capazes de dar respostas urgentes e satisfatórias para os homens, que tem sede de Deus e sede de verdade. Fiz sempre uma análise externa da situação eclesiástica, mas hoje desejo ir além, e, em minha simplicidade de escritor, pensar a partir de dentro..

Nós estamos sempre a acusar o mundo e a dizer que unicamente pensa em si mesmo, nas próprias convicções, esquecendo-se de olhar para além do próprio umbigo. Mas e quando a Igreja pensa em si mesma e não no ideal maior que se propôs viver? E quando nossos cleros se transformam em verdadeiros "ringues" de disputa sobre quem será o maior e quem é melhor? Quantas vezes a comunhão eclesiológica - o nós da Igreja - foi substituído pelo "eu" do sacerdote, o "centro da ação litúrgica", quase que tirando o lugar do próprio Cristo? Pensam ser fruto de uma realidade unilateral e não se veem inseridos na comunhão verdadeira.

Tanto o Papa Bento XVI como o Papa Francisco - apenas para citar estes mais próximos - tem nos mostrado que a Igreja independe da nossa vontade, mas é fruto da bondade salvífica de Deus, que por meio dela deseja reunir todos os homens na meta comum do Seu Reino. Eles nos fazem recordar que o sacerdócio não pode estar pautado na conquista de títulos, mas na autenticidade que move o homem a abraçar a fé em Jesus Cristo, no amor.

É verdade que, por vezes, o jogo de interesses pode levar à insensibilidade da fé, e a não-coerência de vida gera sacerdotes que convergem o ministério para uma jornada de trabalho, induzindo-os a um ativismo que é sinônimo de esquecimento da oração ou os prendem - se assim podemos dizer - apenas no contexto orante. Bento XVI, diversas vezes, nomeou o martírio que se instaurou também dentro da própria Igreja: martírio da ridicularização. Tornou-se ridículo seguir o que a Igreja pede; tornou-se ridículo viver o Evangelho; tornou-se difícil ser católico dentro da própria Igreja. A conveniência e a "boa praça" tem levado sacerdotes a caminharem em posição totalmente contrária a Doutrina. Quanto mais se tem necessidade de voltar às fontes, de beber dos autênticos ensinamentos eclesiais, mais parece tornar-se escancarada a avacalhação dos que em nome da fé (é o que se pensa) abraçaram o sacerdócio. A justificativa é tenaz, não cessando de reacender um debate que pensássemos já ter sido solucionado nos precedentes Concílios. São João Paulo II, no limiar da inserção de nossa Igreja no terceiro milênio, publicou um dos mais belos livros de seu pontificado: Cruzando o limiar da esperança.

É isto que os fiéis hodiernos pedem: queremos cruzar o limiar da esperança! Mas para isso é necessário que a nossa Igreja volte a ser vista como "Mistério de Deus", não como acontecimento humano. Privar os fiéis de uma boa liturgia, dos ensinamentos da doutrina, dos sacramentos, do conhecimento de verdades, em nome de uma pretensa adesão com mais facilidade à fé ou de outras justificativas equivocadas, é ser incoerente com a Igreja e infiel com Cristo. Talvez, no dia que o sacerdote se fizer a si mesmo, ele poderá "manipular" as próprias fontes da sua fé na sua autossuficiência. Mas no momento ele é "fiel dispensador dos dons de Cristo" e, até que se prove o contrário, é apenas colaborador do Bispo na Diocese. Manipular o que não me pertence é ser mau-caráter e inverossímil.

Sofre o povo de Deus, sofre a Igreja, sofrem os seminaristas e os Bispos como consequência da irresponsabilidade alheia. Sobre estes ainda lembro aquilo que dissera Jesus: "Quem escandalizar um destes pequeninos, seria melhor que amarrasse uma pedra de moinho ao pescoço e se lançasse no mar" (Mt 18,6).

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Onde todos gritam, só Cristo não se ouve

            Hoje em diversas Dioceses do Brasil aconteceu o famoso Grito dos Excluídos, onde pessoas foram às ruas para manifestar a indignação e o descontentamento diante dos sistemas políticos, das confusões causadas pela corrupção e da máfia que envolve toda a realidade pública do País. É bom que nos indignemos com isso. É muito bom! Desde que isso não nos faça sair do viés cristão e nos insira numa realidade meramente de politicagem, onde todos podem atacar, difamar, criticar e desprezar pessoas ou sistemas organizativos.

            Nós sabemos que o Grito (para não repetir esta palavra “Excluídos”, que manipulada me dá nos nervos) foi criado em pleno auge da Teologia da Libertação, na década de 90 (mais precisamente em 1994, por desgraça o ano que nasci), quando Igreja e política pareciam se confundir na América Latina. Muitos alegam que foi graças a TL que o ritmo de “queda” de fiéis foi contido, visão diferente da Europa; outros afirmam que foi pela implantação de novas comunidades. Eu, no entanto, não atribuo este fator a uma jogatina político-religiosa, mas ao poder que a Igreja pôde exercer com a influência de uma nova evangelização, propagada pelo Papa João Paulo II. Quanto às novas comunidades, elas sem dúvida deram e dão o seu papel para uma melhor evangelização, mas não são delas que quero tratar aqui. Tanto que a TL caiu (mas não faliu!) e a Igreja segue com aqueles que de fato desejam manifestar um compromisso autêntico com Cristo, e não com determinado grupo ou partido. Acho sempre oportuno lembrarmos isto: ainda há muita ideia de Teologia da Libertação a ser vencida... ou melhor, muita Teologia da Libertação misturada com marxismo, uma vez que a verdadeira TL não está atrelada a nenhum ideal de vertente política.

            Mas no dia de hoje todos gritaram. Gritaram contra o ajuste fiscal, contra o “golpe” que certamente acham que a “direita” dará na presidente Dilma, contra as mortes, etc. Todos gritaram! Todos espernearam contra isto ou aquilo que os insatisfaz. É em nome dos “excluídos” que nós precisamos promover um “grito” para tirá-los do esquecimento e das realidades fronteiriças da existência, mas onde fica a caridade cristã? Precisamos promover um grito por ideais políticos quando não somos capazes de lembrarmos que Cristo incessantemente nos diz: “quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40)?

            Alguém levantou a bandeira pelos cristãos perseguidos no Oriente Médio? Alguém levantou bandeira pelos prófugos e refugiados que, exilados das suas terras, dependem da caridade do outro para sobreviverem num continente não familiar? Durante quarenta dias quaresmais a Igreja nos convida ao jejum, oração e caridade. Onde está a nossa caridade nesse tempo? Geralmente passa quase que despercebida durante as 5 semanas e agora, em um dia, ganha-se a autonomia de promover um grito que há mais de vinte anos vem se manifestado como uma realidade manipulada, repleta de dissabores e sem êxito. Todos gritam, todos bradam aos céus, todos estão insatisfeitos e ninguém se entende. Ninguém é capaz de manifestar, na insatisfação, o ensejo do diálogo.


No grito dos excluídos todos gritaram, menos Cristo - e sabemos que Ele nunca foi de alarde, mas chega e se forma no silêncio. E tenho a grande desconfiança de que, ainda que gritasse, não seria ouvido. Num mundo onde todos gritam, ninguém se entende. 

domingo, 6 de setembro de 2015

Cardeal Müller sobre o Sínodo: "Risco de Cisma"

O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Gerhard Müller, falando em Ratisbona, advertiu para a possibilidade de uma séria divisão interna na Igreja nos temas que tocam o matrimônio e a sexualidade. Referiu-se em particular aos bispos da sua nativa Alemanha, e disse que as reivindicações deles para assumirem um papel de líderes na definição política da Igreja universal deve ser examinada criticamente, também a luz do êxodo das massas da Igreja católica alemã.

sábado, 5 de setembro de 2015

Questão de verdade ou política? Um olhar sobre a crise

Artigo publicado no domingo passado (30) originalmente no blog Ecclesia Una. Neste artigo estimulo, com uma boa provocação, uma análise sobre o cenário atual do Brasil mediante a crise, não apenas econômica, como também moral. Espero que o leitor possa apreciar e fazer também a sua análise, de forma consciente e serena.
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Nunca como nos últimos dias – precisamente mais de 500 – temos ouvido repetitivamente a palavra crise. Diariamente, em todos os horários, nos vários meios de comunicação, o termo coloca em cheque um drama não tão atual, que já se encontrava desde os tempos da escrita da Sagrada Escritura, e até mesmo bem antes. Esta palavra em seu original grego assume uma tradução múltipla, tais como: distinção, decisão, sentença, juízo, separação. Um cenário que não se limita a locais, mas ultrapassa fronteiras e tempos. Detenho-me, contudo, ao cenário atual do Brasil. O problema aqui é também um problema de identidade, uma perda no senso profundo da mesma. Acredito que daqui derivem em grande parte os problemas relacionados ao social: crise de identidade. Não penso – e nem tenho competência – em dar uma resolução às questões essenciais que maculam a história do país com a má-administração e a inassiduidade de caráter. Estes deveriam suscitar o bem comum e a estabilidade, não apenas das estatais e das cotas de inflação, mas de todo o povo que os elegeram como representantes; não tiranos. Desejo provocar – positivamente – dois aspectos: corrupção e Estado.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Tradição e Igreja: Oposição ou Unidade?

Ofereço ao amigo leitor, na primeira postagem deste blog, uma palestra proferida por ocasião de um encontro com o tema acima. A oportunidade é de destrinchar alguns aspectos principais da Tradição da Igreja. Espero que façam uma boa leitura!

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Jequié, 01 de setembro de 2015

            Para esta palestra gostaria de evidenciar em primeiro lugar o aspecto fundamental que o Espírito Santo exerce na Igreja colaborando na sua sustentação e no correto desenvolvimento da Tradição. Esta não pode ser lida à parte, mas engloba diversos aspectos, como a Sagrada Escritura e os Santos Padres, os Dogmas, etc. Devemos tratar antes de tudo de uma relação entre Cristo e a Igreja, que vai além de uma expressão evangélica. As questões sobre a Igreja hoje se tornaram de um viés mais prático do que teológico. O homem contemporâneo lança-se num emaranhado de perguntas: Qual o dever da Igreja diante de uma realidade que confronta-se incessantemente com a ideia de Deus? Como deve a Igreja orientar o pensamento do homem moderno para a conscientização de que a vida verdadeira está além da brevidade terrena? Qual a responsabilidade da teologia ante a situação do homem hoje? Pode a Igreja dar esperança num mundo que isolou-se na comodidade do seu pensar e na restrição de um aspecto prático?