Hoje em diversas Dioceses do Brasil aconteceu o famoso Grito dos Excluídos, onde pessoas foram às
ruas para manifestar a indignação e o descontentamento diante dos sistemas políticos,
das confusões causadas pela corrupção e da máfia que envolve toda a realidade
pública do País. É bom que nos indignemos com isso. É muito bom! Desde que isso
não nos faça sair do viés cristão e nos insira numa realidade meramente de politicagem,
onde todos podem atacar, difamar, criticar e desprezar pessoas ou sistemas
organizativos.
Nós sabemos que o Grito
(para não repetir esta palavra “Excluídos”,
que manipulada me dá nos nervos) foi criado em pleno auge da Teologia da Libertação,
na década de 90 (mais precisamente em 1994, por desgraça o ano que nasci),
quando Igreja e política pareciam se confundir na América Latina. Muitos alegam
que foi graças a TL que o ritmo de “queda” de fiéis foi contido, visão
diferente da Europa; outros afirmam que foi pela implantação de novas
comunidades. Eu, no entanto, não atribuo este fator a uma jogatina
político-religiosa, mas ao poder que a Igreja pôde exercer com a influência de
uma nova evangelização, propagada
pelo Papa João Paulo II. Quanto às novas comunidades, elas sem dúvida deram e
dão o seu papel para uma melhor evangelização, mas não são delas que quero
tratar aqui. Tanto que a TL caiu (mas não faliu!) e a Igreja segue com aqueles
que de fato desejam manifestar um compromisso autêntico com Cristo, e não com
determinado grupo ou partido. Acho sempre oportuno lembrarmos isto: ainda há
muita ideia de Teologia da Libertação a ser vencida... ou melhor, muita
Teologia da Libertação misturada com marxismo, uma vez que a verdadeira TL não está atrelada a nenhum ideal de
vertente política.
Mas no dia de hoje todos gritaram. Gritaram contra o
ajuste fiscal, contra o “golpe” que certamente acham que a “direita” dará na
presidente Dilma, contra as mortes, etc. Todos gritaram! Todos espernearam
contra isto ou aquilo que os insatisfaz. É em nome dos “excluídos” que nós
precisamos promover um “grito” para tirá-los do esquecimento e das realidades
fronteiriças da existência, mas onde fica a caridade cristã? Precisamos
promover um grito por ideais políticos quando não somos capazes de lembrarmos
que Cristo incessantemente nos diz: “quando o fizestes a
um destes meus pequeninos irmãos,
a mim o fizestes”
(Mt 25, 40)?
Alguém levantou a bandeira pelos cristãos perseguidos no
Oriente Médio? Alguém levantou bandeira pelos prófugos e refugiados que,
exilados das suas terras, dependem da caridade do outro para sobreviverem num continente
não familiar? Durante quarenta dias quaresmais a Igreja nos convida ao jejum,
oração e caridade. Onde está a nossa caridade nesse tempo? Geralmente passa
quase que despercebida durante as 5 semanas e agora, em um dia, ganha-se a
autonomia de promover um grito que há
mais de vinte anos vem se manifestado como uma realidade manipulada, repleta de
dissabores e sem êxito. Todos gritam, todos bradam aos céus, todos estão insatisfeitos e ninguém se entende. Ninguém é capaz de manifestar, na insatisfação, o ensejo do diálogo.
No
grito dos excluídos todos gritaram, menos Cristo - e sabemos que Ele nunca foi de alarde, mas chega e se forma no silêncio. E tenho a grande desconfiança
de que, ainda que gritasse, não seria ouvido. Num mundo onde todos gritam, ninguém se entende.
