Por que, Senhor, na tua Igreja hoje, é errado ser correto? A vergonha nos espreita porque não somos capazes de dar respostas urgentes e satisfatórias para os homens, que tem sede de Deus e sede de verdade. Fiz sempre uma análise externa da situação eclesiástica, mas hoje desejo ir além, e, em minha simplicidade de escritor, pensar a partir de dentro..
Nós estamos sempre a acusar o mundo e a dizer que unicamente pensa em si mesmo, nas próprias convicções, esquecendo-se de olhar para além do próprio umbigo. Mas e quando a Igreja pensa em si mesma e não no ideal maior que se propôs viver? E quando nossos cleros se transformam em verdadeiros "ringues" de disputa sobre quem será o maior e quem é melhor? Quantas vezes a comunhão eclesiológica - o nós da Igreja - foi substituído pelo "eu" do sacerdote, o "centro da ação litúrgica", quase que tirando o lugar do próprio Cristo? Pensam ser fruto de uma realidade unilateral e não se veem inseridos na comunhão verdadeira.
Tanto o Papa Bento XVI como o Papa Francisco - apenas para citar estes mais próximos - tem nos mostrado que a Igreja independe da nossa vontade, mas é fruto da bondade salvífica de Deus, que por meio dela deseja reunir todos os homens na meta comum do Seu Reino. Eles nos fazem recordar que o sacerdócio não pode estar pautado na conquista de títulos, mas na autenticidade que move o homem a abraçar a fé em Jesus Cristo, no amor.
É verdade que, por vezes, o jogo de interesses pode levar à insensibilidade da fé, e a não-coerência de vida gera sacerdotes que convergem o ministério para uma jornada de trabalho, induzindo-os a um ativismo que é sinônimo de esquecimento da oração ou os prendem - se assim podemos dizer - apenas no contexto orante. Bento XVI, diversas vezes, nomeou o martírio que se instaurou também dentro da própria Igreja: martírio da ridicularização. Tornou-se ridículo seguir o que a Igreja pede; tornou-se ridículo viver o Evangelho; tornou-se difícil ser católico dentro da própria Igreja. A conveniência e a "boa praça" tem levado sacerdotes a caminharem em posição totalmente contrária a Doutrina. Quanto mais se tem necessidade de voltar às fontes, de beber dos autênticos ensinamentos eclesiais, mais parece tornar-se escancarada a avacalhação dos que em nome da fé (é o que se pensa) abraçaram o sacerdócio. A justificativa é tenaz, não cessando de reacender um debate que pensássemos já ter sido solucionado nos precedentes Concílios. São João Paulo II, no limiar da inserção de nossa Igreja no terceiro milênio, publicou um dos mais belos livros de seu pontificado: Cruzando o limiar da esperança.
É isto que os fiéis hodiernos pedem: queremos cruzar o limiar da esperança! Mas para isso é necessário que a nossa Igreja volte a ser vista como "Mistério de Deus", não como acontecimento humano. Privar os fiéis de uma boa liturgia, dos ensinamentos da doutrina, dos sacramentos, do conhecimento de verdades, em nome de uma pretensa adesão com mais facilidade à fé ou de outras justificativas equivocadas, é ser incoerente com a Igreja e infiel com Cristo. Talvez, no dia que o sacerdote se fizer a si mesmo, ele poderá "manipular" as próprias fontes da sua fé na sua autossuficiência. Mas no momento ele é "fiel dispensador dos dons de Cristo" e, até que se prove o contrário, é apenas colaborador do Bispo na Diocese. Manipular o que não me pertence é ser mau-caráter e inverossímil.
Sofre o povo de Deus, sofre a Igreja, sofrem os seminaristas e os Bispos como consequência da irresponsabilidade alheia. Sobre estes ainda lembro aquilo que dissera Jesus: "Quem escandalizar um destes pequeninos, seria melhor que amarrasse uma pedra de moinho ao pescoço e se lançasse no mar" (Mt 18,6).
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