domingo, 29 de novembro de 2015

Breve pensamento no início do Advento

Hoje, em consequência do tempo do Advento, veio-me à mente a passagem contundente das palavras de Jesus: "Quem perseverar até o fim será salvo" (Mt 24,13). Tudo parece dificultar a nossa perseverança e o bom êxito das nossas ações. Nos sentimos contraídos por pressões exteriores quase que a sufocarem nossa fé e a capacidade de darmos passos. Nesta dimensão da perseverança, não se evidenciam apenas os nossos esforços para trilharmos o caminho, mas até onde as pessoas permitem que o trilhemos e possamos obter os devidos resultados.
"Quem perseverar até o fim...". Mas como, Senhor, se pode perseverar quando somos perseguidos dentro da própria Igreja, pela prática da verdade? Como se pode perseverar quando somos injustamente acusados por levantarmos a voz em defesa da fé? Como se pode perseverar quando aqueles que deveriam ser semeadores do teu Reino ceifam o trigo bom, mas cultivam o joio? Como se pode perseverar quando a tua própria Igreja possui homens e mulheres que querem ter uma fé parcial, dando fé ao que convém mas rejeitando as condições necessárias para o ser cristão? Como perseverar assolados por tantos males da sociedade pós-moderna, como o relativismo, o hedonismo, o consumismo...? Como perseverar em meio a sede de ódio e o uso da violência como tentativa frustrada de justificar os interesses econômicos? Como perseverar quando o teu próprio Nome é usado como artifício para a violência?
E passados mais de dois mil anos, essas palavras não cessam de nos inquietar e de incomodar a forma como temos até aqui vivido. Não estamos, infelizmente nos é permitido constatar, preparados para o teu advento definitivo. É bem capaz de sermos, como vós dissestes, partidos ao meio e destinados à sorte dos infelizes. Mesmo no desânimo, consola-nos o vosso estímulo: "Levantai as vossas cabeças!". As levantaremos confiando em Vós e na vossa promessa. Afinal, são a esses que prometestes a tua salvação.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Pensando a morte num mundo de vaidades

Antes do mais, devo ressaltar que, por uma questão de coesão, me parece preferível  pensar a morte, enquanto componente do processo existencial humano, do que pensar na morte.
O título a primeiro instante deve ter criado até mesmo uma repulsa no leitor. Em parte, compreendo! Vivemos numa sociedade marcada pelo instinto de felicidade plena. Não se pensa mais para além de si, mas pensa-se em si e no agora. Vivemos intensamente e desfrutamos de todos os prazeres, mas nunca nos preocupamos em interrogar-nos com a pergunta que é parte deste processo de vida: O que virá depois disso? Certos dramas – e não me nego a afirmar convictamente – que o homem contemporâneo tomou para si, são consequências da sua repulsa por pensar que um dia todos chegarão a um termo na vida.
Dois de novembro é o dia que muitos vão ao cemitério, levam flores, acendem velas nos jazidos dos que o precederam neste mundo e terminaram as suas vidas acometidos por uma doença ou por uma grande fatalidade, ou ainda tiveram sua vida tirada por outrem. Lamentável! Todos fazem este processo de relembrança, mas poucos sabem – como escrevi noutro artigo – fazer o processo de ressignificação dessa pessoa em sua vida e qual lugar ele deveria ocupar a partir daquele instante. Não nos acostumamos à ausência facilmente, mas se não encararmos o processo de dor imediata, uma hora ela aparecerá de forma tão avassaladora que poderá desmotivar o sujeito até mesmo para a vida.
Mas, o que pensar da morte neste mundo de aparências e de felicidades fugazes? Como pode o homem da pós-modernidade lançar um olhar sobre ela sem que isso o deixe extremamente constrangido ao sair de um cemitério ou sem que, talvez por um dia ou mais, permaneça com sentimento de angústia?
A morte sempre permaneceu um enigma, quer para a filosofia, quer para a teologia ou mesmo para a ciência. A ciência ainda dirá que a consequência da morte é a cessação das atividades dos órgãos característicos para a manutenção física. Mas a meu ver isso não é causa, é consequência. A pergunta seria anterior a este estágio: por que, então, os órgãos deixam de funcionar? Entretanto, não é aqui ainda que quero me ater, nos aspectos científicos. Desejo suscitar no leitor a possibilidade (ou necessidade) de convergir o olhar para a morte, não de forma assustadora e mitificada pelo que se ouve falar em diversos âmbitos. Pensemos a morte de forma mais suavizada... se é possível.