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| Salve, Sancta Parens |
Ao iniciarmos mais um ano, queremos agradecer ao Senhor da
vida que nos concede a oportunidade de introduzirmos um novo tempo em nossa
história, onde poderemos trilhar, na cotidianidade, os caminhos que nos
propusermos a fazer em nosso percurso existencial. Para tanto, devemos sempre
ter em mente que este momento não se dá jamais de forma desregrada ou
autossuficiente, mas está inteiramente sob a conduta de uma vida que sabe ver
em Deus o ápice de todo caminhar. O primeiro dia do ano não é marcado somente
pela felicidade momentânea de troca de votos e de desejos expressivos de um ano
próspero e duradouro. Outra celebração, ainda mais revestida de esplendor, assinala
este momento: a Solenidade da Maternidade divina de Maria. Na vasta gama de
oportunidades para celebrarmos esta data, aprouve a Igreja confiar a Virgem Mãe
este momento. Na alvissareira condição histórica, Maria é aquela que nos faz
silenciar na escuta atenta, no acalanto do regaço materno e no tempo que
devemos oferecer a Deus.
“O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua
face, e se compadeça de ti! O
Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!” (Nm 6,24-26). A Francisco de Assis parecia agradar-lhe muito essa
fórmula de bênção da primeira leitura de hoje, que depois a liturgia também
tomou para as celebrações, inserindo-a como a primeira nas possibilidades das
bênçãos “per annum”. Ele mesmo escreveu-a de próprio punho ao seu confrade,
confessor e pai, Frei Leão. Como diácono, Francisco sabia que Leão estava acima
dele enquanto sacerdote, por isso nutria-lhe grande respeito e nele reconhecia
a dignidade da identidade sacerdotal. Recuperando uma fórmula quase esquecida,
motivava um novo olhar sobre o Deus que enriquece com sua graça a humanidade. É
claro que Francisco procurava acima de tudo o olhar de Deus, quase numa
analogia com o próprio salmista, que escreveu: “Meu coração diz a teu respeito:
‘Buscai a minha face!’. A vossa face, Senhor, eu procuro. Não escondais de mim
a vossa face, não rejeiteis com ira o vosso servo” (Sl 26, 8-9). Desde a forma como preparava a chegada do Príncipe da
Paz (cf. Is 9,6), podemos antever que
o seu desejo era antes de tudo encontrar o rosto de Deus e transmiti-lo também
aos outros. Ele sabia que aquele rosto tivera se manifestado em Jesus Cristo e
queria que, como os pastores e magos, o estábulo fosse agora o local da acolhida
de todos os que viessem ver o Deus menino. Quando, em 1223, celebrou o Natal em
Greccio com um boi, um jumento e uma manjedoura cheia de feno, tornou-se
visível uma dimensão mais contundente e atual desta festa. Natal era agora a
festa da pobreza de Deus, que por meio de um menino aparentemente comum e igual
a todos os outros, falou e fala aos homens que se deixam tocar pelo Seu
mistério.

