Mais uma vez a Igreja
nos insere no contexto grandioso da solenidade hodierna. Deus entra na história
humana; o distante torna-se próximo e o céu e a terra entrelaçam-se. Ele é um
de nós! Mas este acontecimento que os gregos chamariam de “absurdo”, para nós
exprime algo mais. Ele dilata a nossa visão para a essência da vida, nos
retirando da mesquinhez intelectual e da soberania do nosso ego; desinstala-nos
da nossa comodidade e nos faz andar novamente a Belém para adorarmos o mistério
de Deus ali manifestado. Ele é a verdadeira esperança; a promessa esperada de
paz e de salvação do povo hebreu.
No livro de Malaquias,
lido por nós na iminência desta solenidade, o profeta nos relata a promessa
messiânica daquele que viria instaurar a paz, a ordem e a justiça entre os
povos: “Ele se estabelecerá e pastoreará na força do Senhor, na majestade do
nome do Senhor, o seu Deus. E eles viverão em segurança, pois a grandeza dele
alcançará os confins da terra. Ele será a sua paz” (5,2-5). A promessa de paz
vem acompanhada da certeza do pastoreio na força e na majestade. Parece-nos
paradoxal a compreensão desta realidade ambígua diante da bem-aventurança
pacífica de Jesus: “Bem-aventurados os que promovem a paz” (Mt 5,9). Como pode prover a paz se o
texto conjuga como característica deste pastoreio a força? A compreensão
equivocada destas palavras poderia induzir-nos a uma deturpada leitura do lugar
de Deus na história e da sua intervenção na vida do homem. De fato, quantas
vezes o nome divino foi e é usado para promover a guerra, a disseminação do
ódio e a intolerância? Não seria esta uma abertura errônea do homem para Deus? Parecer-nos-ia
que Deus precisaria da força e do ódio para impor-se diante do mundo, como se o
seu poder fosse reduzido a uma instância meramente humana. Às palavras do
profeta, entretanto, não podemos esquecer-nos da promessa que se segue àquela
da instauração da força: “Ele será a sua paz”. Sim, Ele é verdadeiramente a
paz, não apenas daqueles que sofreram sob o exílio, como também daqueles que
hoje sofrem e são exilados da sua pátria, seja por motivos religiosos, seja por
motivos socioeconômicos. É necessário que o homem tenha o seu coração dilatado
a Deus para a compreensão desta promessa salutar.
Novamente o Natal nos
faz pensar na dramática situação de um mundo fechado em si mesmo, que não é
capaz de procurar respostas além daquelas padronizadas que podem lhe ser
inseridas em certos contextos. A diminuta capacidade dos questionamentos
filosóficos não deixa de gerar um afastamento de Deus. Quanto mais nos
potencializamos ao conhecimento, mais parecemos não estar abertos ao diálogo;
parecemos não aceitar que a nossa razão esteja sujeita a uma verdade maior, mas
nos fazemos a nossa própria verdade. Vemos repetido o quadro joanino quase que
a desdobrar-se como realidade última: “Veio para o que era seu e os seus não o
acolheram” (Jo 1, 11). Onde não há
Deus, onde Ele não é acolhido, também não há paz, e, consequentemente, não pode
haver esperança. A verdadeira paz provém do reconhecimento da majestade divina,
que não nos ensoberbece na mentalidade do nosso eu, mas nos faz compreender que
acima de nós há uma realidade a nos transcender e nos unir e que tem em máxima
instância a resposta definitiva sobre o mundo. As armas não podem sustentar a
paz, uma vez que esta somente sobre Deus se edifica. O natal torna-se portanto
o evento da paz sincera, que não se alegra com a desumanidade mas brota da
sinceridade de quem vê na glória de um recém-nascido o fundamento da vida e de
quem é capaz de torná-lo a base dos seus diálogos. Certamente se os habitantes
de Belém fossem capazes de oportunizar este diálogo pacificador, não teriam
fechado a porta diante de Maria e José e os deixado ao relento, tendo sido
forçados a andarem para um estábulo. Por conseguinte, isto gera também uma
esperança para os pequenos: onde antes tudo era reduzido à realidade insensível,
exatamente ali, Deus se faz esperança, e dali Ele mesmo gera esperança para o
mundo.
Diante da grandiosa
descida, da glória do rebaixamento, Ele ofereceu ao homem a própria vida. A sua
encarnação não é realidade restrita de um tempo, mas estende-se no “hoje” da
história. Contudo, mesmo com seu arcabouço intelectual que tende a dilatar-se
no racionalismo cego e pretencioso, o homem não foi capaz de criar um lugar
melhor para Deus senão um estábulo. E assim Ele mesmo torna-se vítima da desumanidade
e da imundície que o reduz. Esta realidade torna-se agora uma oração à qual
devemos fazer nesta noite santa: Concede a paz ao teu povo, Senhor! Salvai-nos
do perigo da cegueira da razão, que vitima a nossa fé e fere a nossa
humanidade. Ajudai-nos a reconhecer-Te como a autêntica promessa de paz, que
não violenta nossa vontade, mas cativa o nosso coração.
Os santos exprimiram
vivamente a sua união com o menino de Belém, desde São Leão Magno, São
Francisco de Assis, Santo Afonso Maria de Ligório, Santa Terezinha do Menino
Jesus e outros tantos. O reconhecimento da divindade de Jesus expressa-se como
um dos grandes dilemas da Igreja do primeiro século. Como fazer a transição da
leitura do Antigo para o Novo Testamento, que ainda assim não expressava em sua
totalidade a relação da consubstancialidade? Nos vivos embates entre a doutrina
ariana e a doutrina da Igreja, a figura do Cristo esteve de certa forma sempre
em “xeque”. Também nos pareceria ter qualquer coisa de estranho nesta ideia de
que um menino pudesse manifestar a presença de Deus no mundo ou de que fosse portador
daquelas características que lhe são atribuídas na primeira leitura:
“Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros, Príncipe da paz” (Is 9,5). Este dilema de dupla natureza
pareceu não cessar no século IV; ao contrário, suscitou-se novamente entre as
grandes questões da teologia contemporânea: Quem é Jesus? Podemos separar o
Cristo da fé do Jesus histórico? São Leão Magno, rebatendo a mentalidade do
bispo herege, dirige à teologia as suas palavras: “Embora duas naturezas, uma a assumente e outra assumida, é
tal a unidade que formam, que um único e mesmo Filho poderá dizer-se, enquanto
verdadeiro homem, menor que o Pai (cf. Jo
14, 38) e enquanto verdadeiro
Deus, igual ao Pai (cf. Jo 10, 30)”
(Sermão 23: Natal do Senhor). E é assim
que o professamos em cada celebração eucarística: “consubstancial ao Pai”. Com
a sua entrada no mundo, Deus reergue o homem decaído pelo pecado. Ele não se
contenta na eterna permanência do inacessível, mas permite-se tocar; Ele é
palpável e visível no Filho unigênito, que vem para restaurar todas as coisas
(cf. Ap 21,5).
Para muitos o Natal
tornou-se a festa do comércio. Sua realidade mística e teológica foi esvaziada
junto com as demais instâncias da vida. Natal é agora a festa dos presentes,
dos negócios ou até mesmo de um sentimentalismo idílico das famílias. Mas é no
fundo a festa do Deus encarnado? Tem ela a falar-nos algo hoje? A encarnação
transformou-se num fatídico acontecimento, pesaroso para o homem que não se
sente comovido a direcionar uma vez mais o olhar para a gruta. Deus se tornou
um peso na consciência porque a consciência grita para si mesma, mas vê-se
limitada e incapaz de um olhar ulterior. Ali, onde os animais comiam o feno, o
Filho de Deus se dá aos homens, entra na nossa história e comunga da nossa
fragilidade.
Para os pastores,
tocados pela beleza do coro angélico, a necessidade imperiosa os motivava a não
permanecerem no comodismo. O evangelho nos relata a frase entusiasmante: Transeamus usque Bethleem: traduz a
Bíblia latina. Atravessemos para o outro lado! Ultrapassemo-nos! Nesta noite
santa, a Palavra divina nos convida para um olhar além, marcado não mais pelos
símbolos, que através da história se constituíram como instrumentos de Deus
para a comunicação com seu povo. Agora Ele fala diretamente a nós pelo Logos (Palavra) que encontra no ventre
de Maria uma forma e apresenta-se ao mundo como Pessoa. Quando somos capazes de
sair do nosso comodismo para deslocar-nos a Belém no intuito primeiro de adorar
o Mistério de Deus e tomar parte do caráter salvífico, então somos capazes de
ser denominados filhos de Deus e irmãos em Cristo. Quando, porém, somos movidos
por ideais interesseiros ou nos aventuramos a intencionar um segundo desejo,
ocultando-o a partir do primeiro, já não somos aí reconhecidos filhos de Deus,
mas nos esvaziamos de qualquer sinal de fraternidade.
O acontecimento de Belém
desdobra-se não na acolhida dos homens, mas no calor dos animais. E
precisamente lá Ele se faz via de salvação! A partir de Belém podemos intuir
algo ainda maior. O mistério de natal nos faz contemplar, não sem grande
deslumbramento, a capacidade da abnegação de Deus da sua própria soberania para
se comunicar na linguagem dos homens e mostrar-lhes que onde não há espaço para
o outro e para Ele próprio, não poderá jamais haver uma “humanização do
humano”. Ele nos sinaliza que a verdadeira força não está no amor ao poder, mas
no poder do amor. Perturba a sociedade contemporânea esta realidade. Mesmo
quando eu não quero que Deus seja parte de minha vida, Ele permanece a
acompanhar-me. Sua presença é sentida sobretudo na presença da Igreja, sempre
disposta na acolhida e no perdão. Mas o resultado desse não-reconhecimento é
sempre um: o fracasso da humanidade. Diante de tão doloroso cenário é justo que
reencontremos a esperança e a força de rezar: Senhor, reconduzi-nos a Belém!
Guiai-nos diante das intempéries da vida, para que não nos percamos de Vós e
não nos percamos em nós. Maria, vós que sentistes a ausência da solidariedade
junto ao vosso Filho, não permitais que falte ao nosso mundo um olhar atencioso
sobre os que padecem tribulação.

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