"Fides ex auditu - A fé vem pelo ouvir" (Rm 10,17), nos diz o bem-aventurado apóstolo Paulo. Se, pois, é verdade que a fé vem do ouvir, o é também que o testemunho deriva da fé, nasce como consequência (ou resultado) daquilo que dizemos crer e professar. A Igreja não pode ser portadora de meias palavras, mas anunciadora íntegra do depósito da fé e da novidade de Deus, personificado no próprio Filho, Jesus Cristo, a Boa Nova por excelência.
Sim, a fé nasce da escuta, do ouvir, não apenas daquele ouvir físico. A experiência da escuta é permeada, outrossim, por aquela do coração, que não permanece insensível e inerte diante daquele que chama e, como outrora o fez com Samuel, pronuncia agora o nosso nome (1Sm 3,4-10).
Também isto vale à Igreja, que todos os dias deve sentir novamente o chamado de Cristo - mesmo sendo sua esposa - para que não perca a retidão da sua missão e a consciência que deve situar-se num mundo de tribulações como porta-voz da verdade. Consciência... Quanto falta aos seus membros! Lamentamo-nos todos os dias porque parece ser cada dia mais precária a presença de pastores determinados, que se preocupem não tanto em transmitir o que pensam, mas em transmitir o que lhes fora pedido pelo próprio Cristo através da mesma Igreja. Pela consciência o homem pode livrar-se de um pecado, mas pode também cair nele; pode afastar-se de uma heresia, mas pode abraçá-la; pode dizer "sim" a Deus, mas pode dizer-Lhe "não".
A consciência é o fórum de juízo íntimo onde nem o próprio Deus viola, porque faz parte do livre arbítrio com o qual quisera Ele dotar o homem. Mas não é sobre os aspectos filosóficos e teológicos que quero chamar atenção. Unicamente desejo alertar para que não transformemos a Igreja numa "testemunha" vazia, que não tem conteúdo porque serve-se apenas de práticas infundadas. Sem solidez, sem razão pela qual testemunhar, o próprio testemunho perde o seu sentido e pode tornar-se filantropia, exibicionismo, ignorância, Não em outra percepção São Pedro advertiu: "Estejais prontos a dar razão da vossa esperança" (1Pd 3,15). Dar razão poderia ser lido, hoje, como manifestar ao mundo a causa do que sustenta a nossa esperança, que não advém de qualquer lugar, mas nasce daquele que compartilhou a nossa fragilidade para nos dar a salvação.
O que temos a pedir? Uma igreja de testemunho, sim, mas uma Igreja também de palavras. O que seria da nossa Doutrina e da nossa fé se não fosse a Tradição oral e escrita transmitida a nós ao longo de séculos? Certamente já nos teríamos perdido, definhado como definharam tantas ideologias, nomenclaturas cristãs ou regimes políticos. Com certeza essa seria a ótica eficaz para compreensão do Pontificado do Papa Francisco, do Papa Bento XVI, do Papa João Paulo II e de todos os outros Sucessores de São Pedro. Relembrando aquilo que São Paulo dissera aos Coríntios: "Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento" (1Cor 3,6). Nesta vasta Seara do Senhor, ninguém trabalha sozinho, ninguém é autossuficiente, ninguém é único. Todos podem ser substituídos, na devida proporção, com seu devido modo de pastorear. Tudo é passageiro, mas só o Esposo da Igreja permanece, o dono da vinha, a razão das nossas palavras e testemunhos.
Graças a Deus porque a nossa Igreja vive de testemunho (reforçando: resultado primeiro da nossa fé), mas é graças a Deus também que ela vive de palavras, de documentos magisteriais, de ensinamentos que podem regulamentar sobre como vivenciar a nossa fé e conservar o que já cremos.