Antes do mais, devo ressaltar que, por uma questão de coesão, me parece preferível pensar a
morte, enquanto componente do processo existencial humano, do que pensar na morte.
O
título a primeiro instante deve ter criado até mesmo uma repulsa no leitor. Em
parte, compreendo! Vivemos numa sociedade marcada pelo instinto de felicidade
plena. Não se pensa mais para além de si, mas pensa-se em si e no agora.
Vivemos intensamente e desfrutamos de todos os prazeres, mas nunca nos
preocupamos em interrogar-nos com a pergunta que é parte deste processo de vida: O que virá depois disso?
Certos dramas – e não me nego a afirmar convictamente – que o homem
contemporâneo tomou para si, são consequências da sua repulsa por pensar que um
dia todos chegarão a um termo na vida.
Dois
de novembro é o dia que muitos vão ao cemitério, levam flores, acendem velas
nos jazidos dos que o precederam neste mundo e terminaram as suas vidas
acometidos por uma doença ou por uma grande fatalidade, ou ainda tiveram sua
vida tirada por outrem. Lamentável! Todos fazem este processo de relembrança,
mas poucos sabem – como escrevi noutro artigo – fazer o processo de ressignificação dessa pessoa em sua
vida e qual lugar ele deveria ocupar a partir daquele instante. Não nos
acostumamos à ausência facilmente, mas se não encararmos o processo de dor
imediata, uma hora ela aparecerá de forma tão avassaladora que poderá
desmotivar o sujeito até mesmo para a vida.
Mas,
o que pensar da morte neste mundo de aparências e de felicidades fugazes? Como
pode o homem da pós-modernidade lançar um olhar sobre ela sem que isso o
deixe extremamente constrangido ao sair de um cemitério ou sem que, talvez por um dia ou mais, permaneça com sentimento de angústia?
A
morte sempre permaneceu um enigma, quer para a filosofia, quer para a teologia
ou mesmo para a ciência. A ciência ainda dirá que a consequência da morte é a cessação
das atividades dos órgãos característicos para a manutenção física. Mas a meu
ver isso não é causa, é consequência. A pergunta seria anterior a este estágio:
por que, então, os órgãos deixam de funcionar? Entretanto, não é aqui ainda que
quero me ater, nos aspectos científicos. Desejo suscitar no leitor a
possibilidade (ou necessidade) de convergir o olhar para a morte, não de forma
assustadora e mitificada pelo que se ouve falar em diversos âmbitos. Pensemos a
morte de forma mais suavizada... se é possível.
