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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Pensando a morte num mundo de vaidades

Antes do mais, devo ressaltar que, por uma questão de coesão, me parece preferível  pensar a morte, enquanto componente do processo existencial humano, do que pensar na morte.
O título a primeiro instante deve ter criado até mesmo uma repulsa no leitor. Em parte, compreendo! Vivemos numa sociedade marcada pelo instinto de felicidade plena. Não se pensa mais para além de si, mas pensa-se em si e no agora. Vivemos intensamente e desfrutamos de todos os prazeres, mas nunca nos preocupamos em interrogar-nos com a pergunta que é parte deste processo de vida: O que virá depois disso? Certos dramas – e não me nego a afirmar convictamente – que o homem contemporâneo tomou para si, são consequências da sua repulsa por pensar que um dia todos chegarão a um termo na vida.
Dois de novembro é o dia que muitos vão ao cemitério, levam flores, acendem velas nos jazidos dos que o precederam neste mundo e terminaram as suas vidas acometidos por uma doença ou por uma grande fatalidade, ou ainda tiveram sua vida tirada por outrem. Lamentável! Todos fazem este processo de relembrança, mas poucos sabem – como escrevi noutro artigo – fazer o processo de ressignificação dessa pessoa em sua vida e qual lugar ele deveria ocupar a partir daquele instante. Não nos acostumamos à ausência facilmente, mas se não encararmos o processo de dor imediata, uma hora ela aparecerá de forma tão avassaladora que poderá desmotivar o sujeito até mesmo para a vida.
Mas, o que pensar da morte neste mundo de aparências e de felicidades fugazes? Como pode o homem da pós-modernidade lançar um olhar sobre ela sem que isso o deixe extremamente constrangido ao sair de um cemitério ou sem que, talvez por um dia ou mais, permaneça com sentimento de angústia?
A morte sempre permaneceu um enigma, quer para a filosofia, quer para a teologia ou mesmo para a ciência. A ciência ainda dirá que a consequência da morte é a cessação das atividades dos órgãos característicos para a manutenção física. Mas a meu ver isso não é causa, é consequência. A pergunta seria anterior a este estágio: por que, então, os órgãos deixam de funcionar? Entretanto, não é aqui ainda que quero me ater, nos aspectos científicos. Desejo suscitar no leitor a possibilidade (ou necessidade) de convergir o olhar para a morte, não de forma assustadora e mitificada pelo que se ouve falar em diversos âmbitos. Pensemos a morte de forma mais suavizada... se é possível.

sábado, 24 de outubro de 2015

Quem sou eu?

A pertinente pergunta filosófica que intitula nosso artigo cederá lugar aqui a uma análise sobre a situação do homem diante das novas tecnologias. Uma visão filosófico-social mediante os desafios que se desdobram no cenário da superficialidade das relações e da incompatibilidade com o eu.

Não desmerecendo o valor do grande avanço científico que nos possibilitou certa proximidade com pessoas fisicamente distantes de nós, sabendo que, se usados coerentemente, estes meios tendem a dilatar perspectivas maiores para a potencialização do conhecimento, não podemos, por outro lado, ignorar a guinada que o ser humano propiciou com a sua anuência às relações virtuais em detrimento das relações físicas. Substituiu-se a realidade por alguns sms’s, mensagens de voz, postagens nos perfis do facebook ou fotos no instagram. Aliás, a coisa está tão patente que a sua vida se reduziu a uma multiplicidade de like’s, e quando não os conseguem, entram numa crise estapafúrdia de inferioridade. Se tiver muitas curtidas (quer seja no facebook, quer no instagram) é conhecido; mas se poucos o veem, curtem e seguem, surge a pergunta existencial inserida neste outro contexto: quem sou eu? Quem aparento ser diante de alguém que tem 20 mil curtidas? A partir daí começa-se o investimento que faz jus a música de um cantor brasileiro, estimulando a ideia de uma metamorfose ambulante.

Mas não parou por aí! A situação degringolou de vez quando fomos assolados pela massa midiática que preponderantemente nos informa, mas não nos forma – e por isso nos deforma. Quando a dimensão pessoal fica restringida a redutibilidade de um celular ou de um computador, a vida perde sentido diante daquelas ações e reações que só o contato físico pode favorecer. As emoções parecem superficiais, os sentimentos são fugazes, as palavras são esquecidas. Em primeiro instante tudo parece belo e lindo, mas depois temos a capacidade de com um delete excluir tudo o que fora dito... Dito, mas não vivido!

No mundo da superficialidade falta esperança, sobra espera. É preciso esperar com esperança e ter esperança na espera. Faltam-se as redes sociais? Brota a impaciência! Ficam aniquiladas as estruturas do diálogo porque já não mais se é capaz de parar e escutar. Quanto mais usamos mal a web, mais ficamos descomprometidos com a verdade, mais ficamos longe de nós mesmos e ficamos menos a disposição do outro. Urge retomar a consciência da escuta, que é uma das bases do diálogo. Onde todos falam ao mesmo tempo, a ninguém se escuta. Quando dez pessoas falam conjuntamente, dali só ouve-se murmúrios, vozes que se misturam com uma grotesca falta de educação, de tal forma que um sempre quererá sobrepujar a sua à dos demais. Se nós apenas falamos e falamos, a quem escutamos? Tolhemo-nos do conhecimento porque desconhecemos aspectos que antes eram cruciais na vida.

Gosto de escrever poesias, e numa delas falava sobre ressignificar, isto é, conferir nova acepção, novo significado, aos aspectos que permeiam o nosso cotidiano. Penso que tenha chegado também a hora de direcionarmos um novo olhar para os meios de comunicação. Que lugar eles ocupam na nossa vida? Apenas nos subtraem da vida ou nos ajudam na apropriação do conhecimento? E que conhecimento pode nos oferecer as redes sociais? Sou “senhor” das comunicações sociais ou deixo que elas me dominem? Promovo o bem no âmbito interativo?

Incrivelmente as redes sociais nos mantém ocupados, mas não nos tornam mais inteligentes. Nesse patamar, não sei se alcançaremos uma virada epistemológica do conhecimento. E quando somos convidados a parar, encontramos o nosso próprio eu e nos sentimos tão vazios que logo procuramos outras ocupações que nos mantenham ocupados. É quase inviável que, nesta conjuntura, descubramos quem somos de fato.