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sábado, 12 de dezembro de 2015

Comunicação e Juventude: o desafio da Igreja hoje

“A mãe Igreja sabe que estes meios, retamente utilizados, prestam ajuda valiosa ao gênero humano, enquanto contribuem eficazmente para recrear e cultivar os espíritos e para propagar e firmar o reino de Deus; sabe também que os homens podem utilizar tais meios contra o desígnio do Criador e convertê-los em meios da sua própria ruína; mais ainda, sente uma maternal angústia pelos danos que, com o seu mau uso, se têm infligido, com demasiada frequência, à sociedade humana” (Inter Mirifica, 2).

O Decreto Inter mirifica, que há mais de 50 anos a Igreja publicou com o Concílio Vaticano II, nos permite antever um cenário que cinco décadas depois tornar-se-ia quase comum no contexto cultural e de valores. Tanto para o bem como para o mal, o homem pode potencializar o uso dos meios de comunicação. Numa sociedade que vitima-se a si mesma pela pela incoerência do uso desses meios e já não sabe assim distinguir entre bem e mal, justo e injusto, verdade e mentira, devemos nos perguntar: como delimitar aquilo que edifica e o que destrói? Até onde os meios de comunicação podem estimular a sabedoria e até onde podem limitá-la ou conduzi-la à prática do mal?

O convite para dirigir algumas palavras a vocês pareceu-me muito oportuno, sobretudo porque aqui encontram-se muitos jovens, quer em idade, quer em espírito. Como tema, escolhi: “Comunicação e Juventude: o desafio da Igreja hoje”. A Igreja é desafiada ao anúncio do Evangelho há quase dois mil anos. Em 2033 celebraremos o Ano Santo do bimilenário da morte e da sua ressurreição de Cristo. Nesse percurso poderíamos pensar em quanto Evangelho anunciado. Quanta Boa Nova! Quantas crianças, jovens, adultos e idosos convertidos! Contudo, quanto ainda se há por fazer! Tão pouco foi concretizado diante do que poderíamos ter feito. Pelo Reino de Deus sempre pode se fazer mais!

O anúncio da Boa Notícia pareceu reduzir-se e limitar-se a realidades padronizadas, quando desejamos manipular – por assim dizer – o Espírito Santo. O desafio da Igreja é o de espalhar a mensagem de Deus, torná-la fecunda e cativar o coração de cada homem, chamando-os a se tornarem parte da viva comunhão com o Criador. Ainda poderíamos dizer melhor: a Igreja deve descobrir Deus nas culturas, os sinais do Verbo (Logos spermatikos), que o Vaticano II retomou da teologia de São Justino. Os meios de comunicação tem um grande potencial para tal, como há muito tempo o fazem colaborando na transmissão do evangelho e conseguindo chegar aos recantos do mundo e aos lugares de difícil acesso. Quantas conversões foram causadas por uma palavra de conforto na televisão, no rádio, na internet! Quantas pessoas ajudadas!

Se temos um prisma bom para aqueles que sabem corretamente usar as redes, temos também um prisma negativo daqueles que as usam para vitimar o outro na sua sede de intolerância, ataques e ignorância. Pensamos sobretudo a partir de uma realidade supérflua, quando as redes começam a assumir uma posição de necessidade e não de colaboração, sinonimamente chamada vício.

sábado, 24 de outubro de 2015

Quem sou eu?

A pertinente pergunta filosófica que intitula nosso artigo cederá lugar aqui a uma análise sobre a situação do homem diante das novas tecnologias. Uma visão filosófico-social mediante os desafios que se desdobram no cenário da superficialidade das relações e da incompatibilidade com o eu.

Não desmerecendo o valor do grande avanço científico que nos possibilitou certa proximidade com pessoas fisicamente distantes de nós, sabendo que, se usados coerentemente, estes meios tendem a dilatar perspectivas maiores para a potencialização do conhecimento, não podemos, por outro lado, ignorar a guinada que o ser humano propiciou com a sua anuência às relações virtuais em detrimento das relações físicas. Substituiu-se a realidade por alguns sms’s, mensagens de voz, postagens nos perfis do facebook ou fotos no instagram. Aliás, a coisa está tão patente que a sua vida se reduziu a uma multiplicidade de like’s, e quando não os conseguem, entram numa crise estapafúrdia de inferioridade. Se tiver muitas curtidas (quer seja no facebook, quer no instagram) é conhecido; mas se poucos o veem, curtem e seguem, surge a pergunta existencial inserida neste outro contexto: quem sou eu? Quem aparento ser diante de alguém que tem 20 mil curtidas? A partir daí começa-se o investimento que faz jus a música de um cantor brasileiro, estimulando a ideia de uma metamorfose ambulante.

Mas não parou por aí! A situação degringolou de vez quando fomos assolados pela massa midiática que preponderantemente nos informa, mas não nos forma – e por isso nos deforma. Quando a dimensão pessoal fica restringida a redutibilidade de um celular ou de um computador, a vida perde sentido diante daquelas ações e reações que só o contato físico pode favorecer. As emoções parecem superficiais, os sentimentos são fugazes, as palavras são esquecidas. Em primeiro instante tudo parece belo e lindo, mas depois temos a capacidade de com um delete excluir tudo o que fora dito... Dito, mas não vivido!

No mundo da superficialidade falta esperança, sobra espera. É preciso esperar com esperança e ter esperança na espera. Faltam-se as redes sociais? Brota a impaciência! Ficam aniquiladas as estruturas do diálogo porque já não mais se é capaz de parar e escutar. Quanto mais usamos mal a web, mais ficamos descomprometidos com a verdade, mais ficamos longe de nós mesmos e ficamos menos a disposição do outro. Urge retomar a consciência da escuta, que é uma das bases do diálogo. Onde todos falam ao mesmo tempo, a ninguém se escuta. Quando dez pessoas falam conjuntamente, dali só ouve-se murmúrios, vozes que se misturam com uma grotesca falta de educação, de tal forma que um sempre quererá sobrepujar a sua à dos demais. Se nós apenas falamos e falamos, a quem escutamos? Tolhemo-nos do conhecimento porque desconhecemos aspectos que antes eram cruciais na vida.

Gosto de escrever poesias, e numa delas falava sobre ressignificar, isto é, conferir nova acepção, novo significado, aos aspectos que permeiam o nosso cotidiano. Penso que tenha chegado também a hora de direcionarmos um novo olhar para os meios de comunicação. Que lugar eles ocupam na nossa vida? Apenas nos subtraem da vida ou nos ajudam na apropriação do conhecimento? E que conhecimento pode nos oferecer as redes sociais? Sou “senhor” das comunicações sociais ou deixo que elas me dominem? Promovo o bem no âmbito interativo?

Incrivelmente as redes sociais nos mantém ocupados, mas não nos tornam mais inteligentes. Nesse patamar, não sei se alcançaremos uma virada epistemológica do conhecimento. E quando somos convidados a parar, encontramos o nosso próprio eu e nos sentimos tão vazios que logo procuramos outras ocupações que nos mantenham ocupados. É quase inviável que, nesta conjuntura, descubramos quem somos de fato.