sábado, 24 de outubro de 2015

Quem sou eu?

A pertinente pergunta filosófica que intitula nosso artigo cederá lugar aqui a uma análise sobre a situação do homem diante das novas tecnologias. Uma visão filosófico-social mediante os desafios que se desdobram no cenário da superficialidade das relações e da incompatibilidade com o eu.

Não desmerecendo o valor do grande avanço científico que nos possibilitou certa proximidade com pessoas fisicamente distantes de nós, sabendo que, se usados coerentemente, estes meios tendem a dilatar perspectivas maiores para a potencialização do conhecimento, não podemos, por outro lado, ignorar a guinada que o ser humano propiciou com a sua anuência às relações virtuais em detrimento das relações físicas. Substituiu-se a realidade por alguns sms’s, mensagens de voz, postagens nos perfis do facebook ou fotos no instagram. Aliás, a coisa está tão patente que a sua vida se reduziu a uma multiplicidade de like’s, e quando não os conseguem, entram numa crise estapafúrdia de inferioridade. Se tiver muitas curtidas (quer seja no facebook, quer no instagram) é conhecido; mas se poucos o veem, curtem e seguem, surge a pergunta existencial inserida neste outro contexto: quem sou eu? Quem aparento ser diante de alguém que tem 20 mil curtidas? A partir daí começa-se o investimento que faz jus a música de um cantor brasileiro, estimulando a ideia de uma metamorfose ambulante.

Mas não parou por aí! A situação degringolou de vez quando fomos assolados pela massa midiática que preponderantemente nos informa, mas não nos forma – e por isso nos deforma. Quando a dimensão pessoal fica restringida a redutibilidade de um celular ou de um computador, a vida perde sentido diante daquelas ações e reações que só o contato físico pode favorecer. As emoções parecem superficiais, os sentimentos são fugazes, as palavras são esquecidas. Em primeiro instante tudo parece belo e lindo, mas depois temos a capacidade de com um delete excluir tudo o que fora dito... Dito, mas não vivido!

No mundo da superficialidade falta esperança, sobra espera. É preciso esperar com esperança e ter esperança na espera. Faltam-se as redes sociais? Brota a impaciência! Ficam aniquiladas as estruturas do diálogo porque já não mais se é capaz de parar e escutar. Quanto mais usamos mal a web, mais ficamos descomprometidos com a verdade, mais ficamos longe de nós mesmos e ficamos menos a disposição do outro. Urge retomar a consciência da escuta, que é uma das bases do diálogo. Onde todos falam ao mesmo tempo, a ninguém se escuta. Quando dez pessoas falam conjuntamente, dali só ouve-se murmúrios, vozes que se misturam com uma grotesca falta de educação, de tal forma que um sempre quererá sobrepujar a sua à dos demais. Se nós apenas falamos e falamos, a quem escutamos? Tolhemo-nos do conhecimento porque desconhecemos aspectos que antes eram cruciais na vida.

Gosto de escrever poesias, e numa delas falava sobre ressignificar, isto é, conferir nova acepção, novo significado, aos aspectos que permeiam o nosso cotidiano. Penso que tenha chegado também a hora de direcionarmos um novo olhar para os meios de comunicação. Que lugar eles ocupam na nossa vida? Apenas nos subtraem da vida ou nos ajudam na apropriação do conhecimento? E que conhecimento pode nos oferecer as redes sociais? Sou “senhor” das comunicações sociais ou deixo que elas me dominem? Promovo o bem no âmbito interativo?

Incrivelmente as redes sociais nos mantém ocupados, mas não nos tornam mais inteligentes. Nesse patamar, não sei se alcançaremos uma virada epistemológica do conhecimento. E quando somos convidados a parar, encontramos o nosso próprio eu e nos sentimos tão vazios que logo procuramos outras ocupações que nos mantenham ocupados. É quase inviável que, nesta conjuntura, descubramos quem somos de fato.


segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Aguardo você por lá...

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domingo, 11 de outubro de 2015

Obrigado porque fostes embora

O pecado não está em possuir, mas em ser possuído por aquilo que você possui. É isso que nos ensina Jesus quando critica não a riqueza, mas o fato de nos deixarmos possuir por ela. Por isso, quando tudo queremos, nada conseguimos. No-lo recordou Pe. Vieira: "Quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem". Nas realidades prioritárias da nossa vida a lei de Deus sempre vai para o último lugar diante do desejo do homem. A riqueza mal usada é como corrente, que não permite que o homem seja elevado, mas o prende neste mundo e quem está preso não pode subir, mesmo que tenha asas e desejo. Há precisos 3 anos, quando repetia-se este mesmo evangelho, eu disse que condenar a riqueza seria um grande prejuízo a Jesus, pois existem pobres soberbos e ricos que são pobres. Existe a profunda pobreza material e a profunda pobreza espiritual. Um não é sinônimo do outro, como também o inverso não pode sê-lo. 

Obrigado, jovem rico, porque fostes embora e não permanecestes onde achastes que não te cabia. 

Obrigado porque vistes que não era aquele o teu local e, na tua sinceridade, mesmo apegado aos bens do mundo, não fostes um usurpador de título ou procurastes o Senhor por interesse.

Obrigado porque proporcionastes a Jesus o belo ensinamento de que o homem que não usa a sua riqueza para o bem, não sabe usar bem sua riqueza.

Obrigado porque ensinastes que não se pode seguir Jesus se não somos capazes de renunciar ao material, ao supérfluo e transitório.

Obrigado porque mostras aos que querem seguir o Senhor a dificuldade do caminho, exigências e respostas de amor que devem ser dadas a quem nos deu tudo.

Obrigado, Padres, que vos percebendo incapazes de dar continuidade ao caminho exigente do Evangelho e para honrar a Igreja preferistes renunciar ao exercício do ministério, não fazendo como tantos outros que dizem amar a Cristo, mas ajuntam para si tanta riqueza, quanto almas para Deus.


Obrigado, Religiosos (as), que não conseguindo abraçar intimamente o caminho do discipulado, deixastes os claustros e congregações para vos inserirdes no mundo, reconhecendo a não-capacidade de dar continuidade ao seguimento radical.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O erro em ser correto: uma análise sobre a Igreja interiormente

Por que, Senhor, na tua Igreja hoje, é errado ser correto? A vergonha nos espreita porque não somos capazes de dar respostas urgentes e satisfatórias para os homens, que tem sede de Deus e sede de verdade. Fiz sempre uma análise externa da situação eclesiástica, mas hoje desejo ir além, e, em minha simplicidade de escritor, pensar a partir de dentro..

Nós estamos sempre a acusar o mundo e a dizer que unicamente pensa em si mesmo, nas próprias convicções, esquecendo-se de olhar para além do próprio umbigo. Mas e quando a Igreja pensa em si mesma e não no ideal maior que se propôs viver? E quando nossos cleros se transformam em verdadeiros "ringues" de disputa sobre quem será o maior e quem é melhor? Quantas vezes a comunhão eclesiológica - o nós da Igreja - foi substituído pelo "eu" do sacerdote, o "centro da ação litúrgica", quase que tirando o lugar do próprio Cristo? Pensam ser fruto de uma realidade unilateral e não se veem inseridos na comunhão verdadeira.

Tanto o Papa Bento XVI como o Papa Francisco - apenas para citar estes mais próximos - tem nos mostrado que a Igreja independe da nossa vontade, mas é fruto da bondade salvífica de Deus, que por meio dela deseja reunir todos os homens na meta comum do Seu Reino. Eles nos fazem recordar que o sacerdócio não pode estar pautado na conquista de títulos, mas na autenticidade que move o homem a abraçar a fé em Jesus Cristo, no amor.

É verdade que, por vezes, o jogo de interesses pode levar à insensibilidade da fé, e a não-coerência de vida gera sacerdotes que convergem o ministério para uma jornada de trabalho, induzindo-os a um ativismo que é sinônimo de esquecimento da oração ou os prendem - se assim podemos dizer - apenas no contexto orante. Bento XVI, diversas vezes, nomeou o martírio que se instaurou também dentro da própria Igreja: martírio da ridicularização. Tornou-se ridículo seguir o que a Igreja pede; tornou-se ridículo viver o Evangelho; tornou-se difícil ser católico dentro da própria Igreja. A conveniência e a "boa praça" tem levado sacerdotes a caminharem em posição totalmente contrária a Doutrina. Quanto mais se tem necessidade de voltar às fontes, de beber dos autênticos ensinamentos eclesiais, mais parece tornar-se escancarada a avacalhação dos que em nome da fé (é o que se pensa) abraçaram o sacerdócio. A justificativa é tenaz, não cessando de reacender um debate que pensássemos já ter sido solucionado nos precedentes Concílios. São João Paulo II, no limiar da inserção de nossa Igreja no terceiro milênio, publicou um dos mais belos livros de seu pontificado: Cruzando o limiar da esperança.

É isto que os fiéis hodiernos pedem: queremos cruzar o limiar da esperança! Mas para isso é necessário que a nossa Igreja volte a ser vista como "Mistério de Deus", não como acontecimento humano. Privar os fiéis de uma boa liturgia, dos ensinamentos da doutrina, dos sacramentos, do conhecimento de verdades, em nome de uma pretensa adesão com mais facilidade à fé ou de outras justificativas equivocadas, é ser incoerente com a Igreja e infiel com Cristo. Talvez, no dia que o sacerdote se fizer a si mesmo, ele poderá "manipular" as próprias fontes da sua fé na sua autossuficiência. Mas no momento ele é "fiel dispensador dos dons de Cristo" e, até que se prove o contrário, é apenas colaborador do Bispo na Diocese. Manipular o que não me pertence é ser mau-caráter e inverossímil.

Sofre o povo de Deus, sofre a Igreja, sofrem os seminaristas e os Bispos como consequência da irresponsabilidade alheia. Sobre estes ainda lembro aquilo que dissera Jesus: "Quem escandalizar um destes pequeninos, seria melhor que amarrasse uma pedra de moinho ao pescoço e se lançasse no mar" (Mt 18,6).

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Onde todos gritam, só Cristo não se ouve

            Hoje em diversas Dioceses do Brasil aconteceu o famoso Grito dos Excluídos, onde pessoas foram às ruas para manifestar a indignação e o descontentamento diante dos sistemas políticos, das confusões causadas pela corrupção e da máfia que envolve toda a realidade pública do País. É bom que nos indignemos com isso. É muito bom! Desde que isso não nos faça sair do viés cristão e nos insira numa realidade meramente de politicagem, onde todos podem atacar, difamar, criticar e desprezar pessoas ou sistemas organizativos.

            Nós sabemos que o Grito (para não repetir esta palavra “Excluídos”, que manipulada me dá nos nervos) foi criado em pleno auge da Teologia da Libertação, na década de 90 (mais precisamente em 1994, por desgraça o ano que nasci), quando Igreja e política pareciam se confundir na América Latina. Muitos alegam que foi graças a TL que o ritmo de “queda” de fiéis foi contido, visão diferente da Europa; outros afirmam que foi pela implantação de novas comunidades. Eu, no entanto, não atribuo este fator a uma jogatina político-religiosa, mas ao poder que a Igreja pôde exercer com a influência de uma nova evangelização, propagada pelo Papa João Paulo II. Quanto às novas comunidades, elas sem dúvida deram e dão o seu papel para uma melhor evangelização, mas não são delas que quero tratar aqui. Tanto que a TL caiu (mas não faliu!) e a Igreja segue com aqueles que de fato desejam manifestar um compromisso autêntico com Cristo, e não com determinado grupo ou partido. Acho sempre oportuno lembrarmos isto: ainda há muita ideia de Teologia da Libertação a ser vencida... ou melhor, muita Teologia da Libertação misturada com marxismo, uma vez que a verdadeira TL não está atrelada a nenhum ideal de vertente política.

            Mas no dia de hoje todos gritaram. Gritaram contra o ajuste fiscal, contra o “golpe” que certamente acham que a “direita” dará na presidente Dilma, contra as mortes, etc. Todos gritaram! Todos espernearam contra isto ou aquilo que os insatisfaz. É em nome dos “excluídos” que nós precisamos promover um “grito” para tirá-los do esquecimento e das realidades fronteiriças da existência, mas onde fica a caridade cristã? Precisamos promover um grito por ideais políticos quando não somos capazes de lembrarmos que Cristo incessantemente nos diz: “quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40)?

            Alguém levantou a bandeira pelos cristãos perseguidos no Oriente Médio? Alguém levantou bandeira pelos prófugos e refugiados que, exilados das suas terras, dependem da caridade do outro para sobreviverem num continente não familiar? Durante quarenta dias quaresmais a Igreja nos convida ao jejum, oração e caridade. Onde está a nossa caridade nesse tempo? Geralmente passa quase que despercebida durante as 5 semanas e agora, em um dia, ganha-se a autonomia de promover um grito que há mais de vinte anos vem se manifestado como uma realidade manipulada, repleta de dissabores e sem êxito. Todos gritam, todos bradam aos céus, todos estão insatisfeitos e ninguém se entende. Ninguém é capaz de manifestar, na insatisfação, o ensejo do diálogo.


No grito dos excluídos todos gritaram, menos Cristo - e sabemos que Ele nunca foi de alarde, mas chega e se forma no silêncio. E tenho a grande desconfiança de que, ainda que gritasse, não seria ouvido. Num mundo onde todos gritam, ninguém se entende. 

domingo, 6 de setembro de 2015

Cardeal Müller sobre o Sínodo: "Risco de Cisma"

O Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Gerhard Müller, falando em Ratisbona, advertiu para a possibilidade de uma séria divisão interna na Igreja nos temas que tocam o matrimônio e a sexualidade. Referiu-se em particular aos bispos da sua nativa Alemanha, e disse que as reivindicações deles para assumirem um papel de líderes na definição política da Igreja universal deve ser examinada criticamente, também a luz do êxodo das massas da Igreja católica alemã.

sábado, 5 de setembro de 2015

Questão de verdade ou política? Um olhar sobre a crise

Artigo publicado no domingo passado (30) originalmente no blog Ecclesia Una. Neste artigo estimulo, com uma boa provocação, uma análise sobre o cenário atual do Brasil mediante a crise, não apenas econômica, como também moral. Espero que o leitor possa apreciar e fazer também a sua análise, de forma consciente e serena.
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Nunca como nos últimos dias – precisamente mais de 500 – temos ouvido repetitivamente a palavra crise. Diariamente, em todos os horários, nos vários meios de comunicação, o termo coloca em cheque um drama não tão atual, que já se encontrava desde os tempos da escrita da Sagrada Escritura, e até mesmo bem antes. Esta palavra em seu original grego assume uma tradução múltipla, tais como: distinção, decisão, sentença, juízo, separação. Um cenário que não se limita a locais, mas ultrapassa fronteiras e tempos. Detenho-me, contudo, ao cenário atual do Brasil. O problema aqui é também um problema de identidade, uma perda no senso profundo da mesma. Acredito que daqui derivem em grande parte os problemas relacionados ao social: crise de identidade. Não penso – e nem tenho competência – em dar uma resolução às questões essenciais que maculam a história do país com a má-administração e a inassiduidade de caráter. Estes deveriam suscitar o bem comum e a estabilidade, não apenas das estatais e das cotas de inflação, mas de todo o povo que os elegeram como representantes; não tiranos. Desejo provocar – positivamente – dois aspectos: corrupção e Estado.