Ofereço ao amigo leitor, na primeira postagem deste blog, uma palestra proferida por ocasião de um encontro com o tema acima. A oportunidade é de destrinchar alguns aspectos principais da Tradição da Igreja. Espero que façam uma boa leitura!
***
Jequié, 01 de setembro de 2015
Para esta palestra
gostaria de evidenciar em primeiro lugar o aspecto fundamental que o Espírito
Santo exerce na Igreja colaborando na sua sustentação e no correto
desenvolvimento da Tradição. Esta não pode ser lida à parte, mas engloba
diversos aspectos, como a Sagrada Escritura e os Santos Padres, os Dogmas, etc.
Devemos tratar antes de tudo de uma relação entre Cristo e a Igreja, que vai
além de uma expressão evangélica. As questões sobre a Igreja hoje se tornaram
de um viés mais prático do que teológico. O homem contemporâneo lança-se num
emaranhado de perguntas: Qual o dever da
Igreja diante de uma realidade que confronta-se incessantemente com a ideia de
Deus? Como deve a Igreja orientar o pensamento do homem moderno para a
conscientização de que a vida verdadeira está além da brevidade terrena? Qual a
responsabilidade da teologia ante a situação do homem hoje? Pode a Igreja dar
esperança num mundo que isolou-se na comodidade do seu pensar e na restrição de
um aspecto prático?
“Muitas coisas ainda tenho-vos a dizer, mas não as podeis
suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da verdade, ensinar-vos-á
toda a verdade... e anunciar-vos-á as coisas que virão” (Jo 16,12-14). Nesta exposição joanina teríamos várias chaves de
leitura exegética, incluindo aquela do termo Paráclito (Parakalou).
Mas prossigamos ao que de fato nos interessa agora. O Espírito é o grande
responsável para que a Tradição não fique confinada a um momento ou que a sua
capacidade de desenvolvimento permaneça atrofiada em certo ponto. Ele nos evidencia
a verdade de Deus e nos exorta com docilidade, conforme é próprio da sua
natureza. José Coblim, sacerdote e teólogo, num dos seus escritos afirmou: “Como
vamos transmitir a mensagem de Jesus, se o que é ensinado é uma doutrina elaborada posteriormente,
marcada pela cultura e realidade, pelos impasses
e desafios das épocas seguintes?”[1]
Mas será de fato que a Tradição nos bloqueia do encontro com a verdade e com a
mensagem original do Evangelho? Não foi Ele próprio que inspirou nos homens da
Igreja um anseio de uma nova formulação da teologia?
Igreja
e Tradição parecem aqui assumir realidades antagônicas. Quem está com uma não
pode estar com a outra. Duramente a Igreja foi provada durante o período
pós-conciliar a respeito do desenvolvimento da teologia na sua relação com o
mundo e a verdade. Para os teólogos das décadas de 60, 70 e 80, deixando suas
marcas até o nosso tempo, a Igreja deveria ver-se primeiramente como
instituição e depois como a transmissora dos valores divinos da fé. Aspectos
fundamentais foram violados em detrimento de certo “bom senso” para uma
teologia mais “humanitária”, que não se preocupasse tanto com o que crer, mas
em como atrair mais fiéis para abarrotar as Igrejas. Numa luta para discernir
entre o pobre e a teologia, nós empobrecemos a teologia ao invés de
preenchermos o pobre. Digo “nós” porque a Igreja – como veremos a frente – não
pode ser estruturada no isolamento, mas é comunhão entre os que militam e os
que triunfam, e também estamos inseridos nesta realidade a partir do batismo.
O
então Padre Joseph Ratzinger, ao tratar da fé do povo de Deus e da crise que começava
a ganhar proporção ainda em sua época de catedrático, nos advertiu sobre o
perigo da nova maneira de vivência da fé no âmbito comunitário. Ela desenvolvia-se
como obscurecimento da Escritura, da Tradição e do Magistério, reduzindo-os a
uma faceta hierárquica para a sustentabilidade do seu poderio, a mesma ideia
que era defendida por Coblim. Na visão que dele já expusemos era preciso um
consenso na nova forma de se fazer teologia. A Igreja deveria libertar-se das
tralhas do passado que a impediam de transpor-se para o encontro com o Jesus
histórico, que lido de forma precipitada em nada acrescenta a nossa fé, apenas
nos indica caminhos de uma revolução social, um desdobramento da salvação no
pobre, não no mistério divino. Nesse sentido, a sua dura condenação é dirigida
aos que veem “a fé da comunidade de modo totalmente diverso: sendo que aquilo
que é comum e objetivo não pode mais ser fundamentado e apreendido, diz-se que
a fé cada vez é aquilo que a respectiva comunidade pensa e encontra no diálogo
com a convicção comum. A ‘comunidade’ toma o lugar da Igreja, a sua experiência
religiosa, o lugar da tradição eclesiástica”[2].
Quando
José Coblim apresentou a mensagem de Jesus como acontecimento isolado ele exonera,
por assim dizer, a ação do Espírito Santo na Igreja; uma contradição com a
própria Escritura que aqui não nos caberia rebater de outra forma senão com o
discurso que São Paulo faz diante dos anciãos de Éfeso: “Cuidai de vós mesmos e
de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para
pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o seu próprio sangue” (At
20,28). A mesma exortação São Pedro faz ao tratar do desejo do clero e dos
fiéis (1Pd 5, 1-3). O Espírito é a fonte de dinamicidade da Igreja, que
une sem uniformizar. Ele a conserva com a estrutura elementar manifestada aos
apóstolos no dia de Pentecostes, a unidade diante dos vários povos (cf. At
2). Mas nem a Escritura nem a Igreja se bastam. Elas devem ser orientadas por
um plano de fundo que seja capaz de interpretar e ler os sinais à luz do mesmo
Espírito.
A visão de Jesus a respeito da compreensão e do anúncio
futuro da verdade são certamente duas características da qual a Tradição
torna-se detentora. Ela é chamada a levar a Verdade aos homens e a levar os
homens a Verdade. Entendemos, contudo, que a essa verdade não estão associados
apenas os elementos vetero e neo-testamentários com o qual a Igreja fundamentou
a sua teologia ao logo dos milênios. Jesus Cristo é a própria Verdade. Ele
mesmo assim Se-nos define: “Eu sou o
caminho, a verdade e a vida” (Jo
14,6). Ele é o “Testamento” por excelência e por Ele se atam a Igreja e a Escritura,
os homens e Deus. É a partir da figura do Cristo que todas as realidades são
apresentadas no decurso da história da Igreja; a Ele se unem as demais
descobertas da Tradição.
Antigamente
tínhamos uma realidade evidentemente oposta a de hoje, onde os homens pensavam
antes de agir e formalizar seus conceitos; hoje, o homem não pensa e nem
permite que outros pensem, mas ensoberbece-se numa realidade conceitual já
pronta, uma cadeia de definições pré-moldadas onde, em última instância, o seu
medo é do próprio pensar. Para – permitam-me a redundância – não pensar que
pensa, ele se envereda naquilo que mais o satisfaz até que assuma a plenitude
da própria palavra satisfacere, fazer-se o bastante, suficiente a si
mesmo, um certo “refúgio” para quem nada pode oferecer e que não reconhece a
necessidade de sempre aprender e amadurecer o próprio conceito no seu percurso
intelectual.
Sobre
esta mesma maturidade São Paulo já nos advertira em sua carta, convidando-nos a
deixarmos a imaturidade, a “criancice” de uma fé adaptável a realidades e
momentos. “Não continuemos crianças ao sabor das ondas” (Ef 4,14), nos diz ele. Não permanecer na imaturidade é o convite para
sairmos de um estado de infantilidade, de uma fé inacessível, que não se
questiona e não é capaz de levantar indagações a respeito do por que e no que crer. O texto nos diz um versículo antes o que significa
este êxodo de uma fé adormecida para
uma fé autêntica, viva, questionadora: devemos – segundo São Paulo – atingir a
“estatura da maturidade de Cristo” (v. 13). No grego deveríamos falar de
“medida da plenitude de Cristo”. Em certo sentido as duas traduções quase que
de forma uníssona nos chamam sempre para um “salto” na fé, um olhar ulterior às
nossas próprias capacidades. Atingir a “estatura da maturidade” ou a “medida da
plenitude” é chegarmos a uma fé que, embora seja inabalável, não seja
inquestionável, mas se torne sinônimo de um desejo de conhecer posto pelo
próprio Deus no coração do homem; é poder fazer da nossa capacidade de conhecer
a nossa capacidade de crer. E é justamente por isso que São Pedro nos adverte a
estarmos sempre prontos a “responder para vossa defesa a todo aquele que vos
pedir a razão de vossa esperança” (1Pd
3,15).
A
Tradição surge como aquela que abarca em si a nossa capacidade cristã de crer e
de conhecer. Nela temos tudo o que precisamos para sustentar a nossa fé, como
já recordei no início. Deveremos, contudo, fazer duas distinções entre a Tradição e a tradição, com inicial maiúscula e minúscula. A tradição de inicial minúscula refere-se às coisas que não incidem
diretamente em nossa fé e não alteram o seu caráter. Se, por exemplo, os magos
eram ou não reis ou seriam três, quatro ou mais. A Tradição de inicial maiúscula nos remete às questões do depósito da fé, que delineiam a Doutrina
e dão sentido a forma que cremos. Se Maria é Mãe de Deus, se Cristo desceu ao
lugar dos mortos, se os Sacramentos são sete, e assim vai.
Já
na Escritura podemos evidenciar os primeiros aspectos da Tradição cristã em
discursos do próprio Jesus, sendo posteriormente sistematizada pela Igreja.
Parece-nos óbvio que a princípio a ideia de Cristo não fosse a formalização de
uma Tradição para a organização da Igreja primitiva. Por outro lado, Jesus
nunca pode ser entendido de forma isolada[3];
Ele quis torna-se “dependente” da Igreja para que a sua palavra – o Logos – chegasse a todos os povos.
Entendê-lo é fazer a hermenêutica da Igreja enquanto Povo de Deus (At 3,25-26), Corpo Místico (1Cor 12,27) e Esposa de Cristo (Ef 5,23-25; 2Cor 11,2). Não nos interessa agora
apresentar detalhadamente cada conceito desses, mas podemos fazê-lo noutra
oportunidade.
O grande dilema dos cristãos da atualidade reside no
entrelaçamento da Igreja com a tradição e a verdade. E daqui surgiria uma
pergunta fundamental que daria uma resposta quase que decisiva diante daqueles
primeiros questionamentos: A verdade faz
a Tradição ou a Tradição faz a verdade? Neste jogo de palavras poderíamos
inocentemente ser conduzidos à indecisão e até mesmo a uma afirmação não
condizente com o real. Vimos
construir-se depois do período iluminista no século XVIII uma muralha entre o
homem antigo e o “novo homem”, o “homem da razão”. Agora a palavra de ordem
seria o relativismo. Em outras
palavras, podemos pensar de formas divergentes e o que pensarmos será a nossa
verdade, sem precisar de uma verdade absoluta.
Para isto tomemos por princípio a afirmação paulina que trata
diretamente da situação da Igreja diante da verdade. Onde ela se situa?
Escrevendo a Timóteo antes da sua segunda partida para Roma, o apóstolo define
a Igreja como “a Igreja do Deus vivo”, acrescentando ser ela “coluna e
sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15).
Algumas traduções referem-se a “coluna e fundamento”. Lendo a exegese de um
autor protestante, este afirmava que São Paulo não fazia referência a Igreja de
Roma precisamente, mas a toda Igreja como ekklesia,
isto é, Assembleia, os cristãos como Corpo de Cristo. De fato, ele faz uso de
dois termos gregos hedraioma
(suporte, apoio) e stulos (pilar,
coluna). Numa certa clarificação deveríamos falar exatamente de sustentáculo. Embora este exegeta não
esteja de todo errado, sabemos da sua pretensão de descaracterizar a própria
Tradição, na qual nos foi legado que a Igreja de Cristo subsiste na própria
Igreja de Roma (subsiste in)[4].
Mas para os protestantes não há Tradição. Eles fazem a própria tradição, que não
nutre o aspecto crucial: a comunhão; tanto que oscilam doutrinalmente.
A Igreja em nenhum momento se define como “a verdade”. Ela
detém a verdade porque detém o próprio Cristo e por isso pode permanecer
inabalável diante dos ventos da história; ela aponta para a verdade porque
aponta para Cristo. Neste sentido ela não somente é coluna como também é sustentáculo,
e em certo sentido é fundamento, pois
o que seria do mandato de Cristo sem a Igreja? Ela é a responsável por
fundamentar[5] as Suas palavras diante da
leitura equivocada do mundo. Não teria Ele se tornado apenas um propagador de
utopia ou um profeta esquecido no passado com uma ideia absurda de ser Deus?
Vê-se, com efeito, que a Escritura vai se desdobrando na Tradição. Graças aos
Sacramentos, de forma particular a Eucaristia, Cristo se perpetua e se sustenta
na história. Sim, a Igreja é Corpo de Cristo porque dá ao mundo o Corpo de
Cristo; dá-se a si mesma, mas dá o Deus que quis se conter nas espécies eucarísticas.
Outro ponto com o qual rebateríamos a ideia do exegeta
protestante é que “o Primado romano, isto é, o reconhecimento de Roma como
critério autêntico da fé apostólica, é mais antigo do que o Cânon do Novo
Testamento, do que ‘a Escritura’”[6].
Logo, a Escritura não pode ser lida à parte, isoladamente, sem a verdadeira
ideia de continuidade e comunhão que a sucedem. A frase de Inácio de Antioquia
ganha aqui a sua “chave”: “Onde está
Cristo Jesus, está a Igreja Católica”[7]. A Igreja é plenamente dependente de Cristo para que a sua atuação
ganhe sentido na história.
Por último quero utilizar-me aqui de uma analogia para a
nossa melhor compreensão. Michelangelo tinha o potencial de ver nas pedras a
imagem pura que só esperava para ser libertada e moldada através das ferramentas
que utilizava em seu trabalho. Ou seja, a tarefa do artista era “descortinar” a
imagem que havia por detrás das pedras e que esperava apenas vir à tona pelas
marteladas e pelos devidos ajustes. Esta mesma ideia era formulada por São
Boaventura em sua antropologia. Para o grande teólogo, o homem só poderia
tornar-se ele próprio se realizasse o seu ablatio,
isto é, se eliminasse aquilo que lhe fosse impróprio. Somente desta forma se
“descortinaria” o que chamou de formam
nobilem et pulchram – forma nobre e formosa[8].
Diríamos então que a verdade faz a Tradição, mas a Tradição reconhece e valida
a verdade.
Não irei agora entrar na definição de Pedro como rocha (kefas) porque penso já ter me alongado
suficientemente. Procurei transcrever aqui, da forma mais acessível e clara, os
aspectos que fundamentam a nossa Tradição. Para o homem dos dias atuais talvez
seja mais fácil continuar na comodidade do não pensar ou da negação. Permitam-me
encerrar com as palavras do livro da Sabedoria: “A sabedoria é um espírito que
ama os homens, mas não deixará sem castigo o blasfemador pelo crime de seus
lábios” (1,6).
[1] COBLIM,
J (Obra póstuma). O Espírito Santo e a
Tradição de Jesus, Nhanduti, São Bernardo do Campo 2012.
[2]
RATZINGER, J. Dogma e Anúncio. Ed.
Loyola, 2013, p. 34
[3]
Segundo o então Cardeal Joseph Ratzinger, seria uma incongruência compreender
Cristo isolado da realidade da comunhão eclesial: “Ele veio para congregar os
que estavam dispersos. (cf. Jo 11,
52; Mt 12,30). Por isso toda a sua
obra consiste em reunir o novo povo” (Compreender
a Igreja hoje: Vocação para a comunhão, Edit. Vozes, 1992, p. 14).
[4]
Const. Dog. Lumen Gentium, 8
[5] No
sentido de fundamentar e não fundamentalizar
[6]
Ratzinger, J. Compreender a Igreja hoje:
Vocação para a comunhão, Edit. Vozes, 1992, p. 38
[7] Carta aos
Erminenses 8,2
[8] Coll in Hex II 33
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