segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Onde todos gritam, só Cristo não se ouve

            Hoje em diversas Dioceses do Brasil aconteceu o famoso Grito dos Excluídos, onde pessoas foram às ruas para manifestar a indignação e o descontentamento diante dos sistemas políticos, das confusões causadas pela corrupção e da máfia que envolve toda a realidade pública do País. É bom que nos indignemos com isso. É muito bom! Desde que isso não nos faça sair do viés cristão e nos insira numa realidade meramente de politicagem, onde todos podem atacar, difamar, criticar e desprezar pessoas ou sistemas organizativos.

            Nós sabemos que o Grito (para não repetir esta palavra “Excluídos”, que manipulada me dá nos nervos) foi criado em pleno auge da Teologia da Libertação, na década de 90 (mais precisamente em 1994, por desgraça o ano que nasci), quando Igreja e política pareciam se confundir na América Latina. Muitos alegam que foi graças a TL que o ritmo de “queda” de fiéis foi contido, visão diferente da Europa; outros afirmam que foi pela implantação de novas comunidades. Eu, no entanto, não atribuo este fator a uma jogatina político-religiosa, mas ao poder que a Igreja pôde exercer com a influência de uma nova evangelização, propagada pelo Papa João Paulo II. Quanto às novas comunidades, elas sem dúvida deram e dão o seu papel para uma melhor evangelização, mas não são delas que quero tratar aqui. Tanto que a TL caiu (mas não faliu!) e a Igreja segue com aqueles que de fato desejam manifestar um compromisso autêntico com Cristo, e não com determinado grupo ou partido. Acho sempre oportuno lembrarmos isto: ainda há muita ideia de Teologia da Libertação a ser vencida... ou melhor, muita Teologia da Libertação misturada com marxismo, uma vez que a verdadeira TL não está atrelada a nenhum ideal de vertente política.

            Mas no dia de hoje todos gritaram. Gritaram contra o ajuste fiscal, contra o “golpe” que certamente acham que a “direita” dará na presidente Dilma, contra as mortes, etc. Todos gritaram! Todos espernearam contra isto ou aquilo que os insatisfaz. É em nome dos “excluídos” que nós precisamos promover um “grito” para tirá-los do esquecimento e das realidades fronteiriças da existência, mas onde fica a caridade cristã? Precisamos promover um grito por ideais políticos quando não somos capazes de lembrarmos que Cristo incessantemente nos diz: “quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25, 40)?

            Alguém levantou a bandeira pelos cristãos perseguidos no Oriente Médio? Alguém levantou bandeira pelos prófugos e refugiados que, exilados das suas terras, dependem da caridade do outro para sobreviverem num continente não familiar? Durante quarenta dias quaresmais a Igreja nos convida ao jejum, oração e caridade. Onde está a nossa caridade nesse tempo? Geralmente passa quase que despercebida durante as 5 semanas e agora, em um dia, ganha-se a autonomia de promover um grito que há mais de vinte anos vem se manifestado como uma realidade manipulada, repleta de dissabores e sem êxito. Todos gritam, todos bradam aos céus, todos estão insatisfeitos e ninguém se entende. Ninguém é capaz de manifestar, na insatisfação, o ensejo do diálogo.


No grito dos excluídos todos gritaram, menos Cristo - e sabemos que Ele nunca foi de alarde, mas chega e se forma no silêncio. E tenho a grande desconfiança de que, ainda que gritasse, não seria ouvido. Num mundo onde todos gritam, ninguém se entende. 

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